No meu livro ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto - a ética da malandragem’’, lançado em finais de 1988, escrevi: ‘‘Na realidade, nunca o comércio da política foi tão exacerbado, e jamais os partidos políticos estiveram tão descaracterizados como representantes da opinião pública, ou de segmentos sociais, como no período anterior às eleições de 1986’’.
O que analisei, portanto, há nove anos, inclui a acentuação do oportunismo partidário, a ausência de qualquer ideologia, princípio ou disciplina por parte dos partidos políticos, que caracterizei muito mais como clubes de interesses do que de elos de representação entre o povo e o governo.
Mas será que alguma coisa mudou neste ano que antecede as eleições de 98? Da parte do eleitor, diria que, em termos, sim. O eleitor brasileiro de modo geral está mais perceptivo, mais desconfiado e, sobretudo, mais ‘‘eleitor de resultados’’, em que pese o fato de estarmos longe de exercer a cidadania de forma ideal.
Evidentemente, ainda somos compostos em termos sociais por uma maioria que alia à escassez de recursos econômicos a escassez de recursos políticos. E essa maioria é mais sensível ao poder personalizado, que através de alguma dose de carisma consiga captar valores, aspirações e fantasias da pobreza, reacendendo, assim, a chama da esperança que nutre o entusiasmo da massa e conquista seus votos.
Isso não quer dizer que mesmo os indivíduos pertencentes às classes mais altas sejam totalmente imunes ao poder personalizado e messiânico. Geralmente se anseia por um salvador, um ungido, um pai figurado no pai Estado, capaz de prover a todos de suas necessidades sem que ninguém precise fazer força para conquistá-las. E esta é uma característica cultural, oriunda da nossa formação política onde o Estado sempre funcionou de forma paternalista e clientelista.
Mesmo assim, de eleição em eleição, os brasileiros vem se aperfeiçoando na escolha de seus representantes, ainda que estejamos, como afirmei acima, um tanto distantes de uma consciência cívica mais apurada.
Em todo caso, pode-se dizer que o eleitor evoluiu bem mais últimos anos do que os políticos e seus clubes de interesses. Isso porque todos os partidos, sem exceção, se descaracterizaram completamente, indo a reboque apenas da vontade dos caciques que os personificam. Enquanto isso, muitos políticos continuam apelando para velhas táticas eleitoreiras, que dão a impressão de estarmos vivendo num país onde a indigência política predomina.
Um desses políticos, o messiânico, arrebatado, dono de uma oratória candente mas vazia, que se pretende dinâmico e moderno, é Ciro Gomes. Espécie de clone defeituoso do ex-presidente Collor, quer reeditar o sucesso eleitoral deste para a Presidência da República, através do Partido Popular Socialista (PPS), antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Um dos traços de Ciro Gomes, o que, aliás, não o torna muito diferente dos seus pares, é a inconsistência ideológica, onde a diferença entre a esquerda e direita se torna propositadamente nebulosa, salientando-se assim o oportunismo eleitoral. Um dos seus agravantes está encarnado no pernóstico guru que traz a tira-colo, o baiano de sotaque americano que fala mal de São Paulo, apesar de ter escolhido a capital deste Estado para residir. Trata-se de Roberto Mangabeira Unger, que depois de fracassar como mentor de Brizola e do PMDB, resolveu agora, depois de 28 anos de ausência do Brasil, reinventá-lo através de um palavrório que talvez impressione os mais incautos. Para se ter uma idéia, o guru que em nosso país é considerado um gênio de Harvard se afirma o difusor de um ideário que atende pelo obtuso título de neoliberalismo-social-democrata-humanizado. Uma espécie falsificada da terceira via de Perón sem o carisma deste.
Unger me lembra um trecho do ‘‘Imbecil Coletivo’’, excelente livro de Olavo de Carvalho: ‘‘O número de farsantes e doutores ineptos em todos os campos da atividade cultural é anormalmente grande neste país - a ponto de constituir um traço permanente da cultura nacional, tanto quanto a corrupção na esfera política ou a impunidade na judiciária. E tal como nestes dois setores os malvados impunes não são apenas numerosos, mas com frequência ocupam os primeiros lugares da hierarquia incumbida de preservar a ordem e a decência, assim também na esfera cultural é difícil desmascarar os pseudo, pela simples razão de que, no mais das vezes ele tem aquela sensação de posição de destaque que o investe, aos olhos do público, da missão e da autoridade de separar o falso do verdadeiro’’.
Ciro Gomes está conseguindo na mídia espaço para seus rompantes messiânicos. Resta esperar para ver se o eleitor ainda se deixa enredar pelo filme ‘‘O Parque dos Dinossauros’’. Afinal, depois da vitória sobre a inflação que levou sobretudo a classe baixa ao paraíso, das privatizações e da abertura de mercados, essa coisa de frente de oposição de esquerdas já vai cansando. Será que Unger sabe disso?

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