Clinton e Pinochet - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de dezembro de 1998
Hélio Doyle 
Em 2001, Bill Clinton será ex-presidente dos Estados Unidos e certamente estará fazendo conferências pelo mundo. Sua mulher, Hillary, estará iniciando sua carreira política por conta própria, e não como primeira-dama que-aguenta-tudo-quieta-para-não-prejudicar-a-carreira-do-marido. Rumo ao sonho de ser a primeira mulher a assumir a presidência dos Estados Unidos, provavelmente em 2008.
Pois imagine-se que, neste ano de 2001, o ex-presidente viaje a algum país sul-americano para fazer uma dessas palestras muito bem pagas e, pouco depois de desembarcar, seja preso a pedido de um tribunal do Iraque, acusado de ter assassinado e ferido homens, mulheres e crianças e destruído casas, hospitais e escolas daquele país. As autoridades da nação sul-americana decidirão se concederão a extradição de Clinton para Bagdá, onde será julgado por genocídio e terrorismo.
Ficção pura, claro, como ficção é o filme Mera Coincidência, em que um presidente dos Estados Unidos recorre à guerra contra a Albânia para se safar de um escândalo sexual. Mas quando o filme foi produzido, Clinton não havia ordenado o lançamento de mísseis contra o Sudão e o Afeganistão num momento crítico, para ele, do Caso Lewinsky. Nem determinado o atual bombardeio ao Iraque às vésperas da votação de seu impeachment por causa do mesmo caso. Mera coincidência?
Nem sempre a ficção se torna realidade, naturalmente, mas o absurdo tem sua lógica. Ninguém acredita que um ex-presidente dos Estados Unidos possa ser preso em um país sul-americano e muito menos a pedido do Iraque. Mesmo que o ex-presidente tenha sido o responsável por milhares de mortes e que o Iraque não seja mais governado por Saddam Hussein.
É absurdo, mas tem lógica. O termo mais brando com que se pode qualificar o bombardeio ao Iraque é criminoso. Pode-se, porém, falar até em genocídio, se somarmos os efeitos de um não menos criminoso embargo econômico: o extermínio de um povo, de uma raça, de um grupo social. E se trata de um ato consumado de terrorismo, na sua versão mais perigosa: o terrorismo de Estado. Genocídio e terrorismo, crimes contra a humanidade.
A Grã-Bretanha prendeu o ex-ditador Augusto Pinochet a pedido da Espanha, por crimes contra a humanidade. Pinochet tem de ser punido. Clinton também poderia ser punido. Pinochet alega que tudo fez em defesa do Chile, da democracia. Sabe-se que não é verdade, embora ele possa até achar que seja. Clinton e seu aliado incondicional Tony Blair alegam que bombardearam o Iraque em nome da paz mundial e do respeito às decisões da ONU. Eles sabem que isso é mentira.
Primeiro, porque não receberam nenhuma delegação da ONU, de seu Conselho de Segurança ou de uma abstrata comunidade internacional para atacar o Iraque. Segundo, porque sabem que o Iraque não oferece o menor perigo a ninguém. É um país que não tem mais poderio militar, tem dois terços de seu território sob controle (não pode movimentar tropas nem sobrevoar essa área), não tem armas nucleares e mesmo que ainda tenha armas químicas e biológicas, dificilmente poderia usá-las.
Bill e Tony querem mesmo é derrubar Saddam e mostrar que os Estados Unidos têm a força. Para isso, não hesitam em matar civis indiscriminadamente e destruir um país. Por pior que seja Saddam, os assassinatos não se justificam. Há maneiras mais civilizadas de fazer as coisas.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


