Clima, o dilema do novo milênio
Ao longo das últimas décadas do século passado, uma das mais constantes e discutidas preocupações relacionava-se com as modificações climáticas e suas projeções futuras. Um dos aspectos dessas modificações, que passa despercebido para a grande maioria da população, é o que diz respeito às consequências geológicas daí decorrentes. Destas, talvez a mais relevante seja aquela relacionada à alteração dos níveis marinhos, fenômeno há muito previsto pela comunidade científica mundial. Há alguns anos, pesquisadores de diversos países têm alertado para o degelo cada vez mais acentuado, que vem afetando os diferentes tipos de geleiras do planeta. A enorme quantidade de água, gerada pelo derretimento das massas de gelo, certamente tem um destino comum: oceanos e mares.
Uma das idéias que prosperaram durante muito tempo e que vem sendo comprovada em pesquisas recentes é a efetiva troca entre correntes aquecidas do Oceano Pacífico e correntes frias do Oceano Ártico, através do estreito de Bering.
Cientificamente, a lenta e gradual elevação da temperatura média mundial tem sido registrada através de pesquisas, efetivadas em centros meteorológicos, Universidades e instituições especializadas de várias partes da Terra. O agravamento do efeito estufa, gerado pela concentração progressivamente maior do gás carbônico na atmosfera, tem sido o principal responsável pelo aquecimento global. A queima descontrolada de combustíveis fósseis, bem como daqueles não caracterizados como tais é, sem dúvida, a principal contribuinte para o acúmulo de CO2 e suas consequências vindouras nos padrões climáticos mundiais.
É evidente que a ação predadora do homem, traduzida pela devastação irresponsável das matas, pela extensa poluição dos mares, pelo mau uso dos solos e pela pressão sobre os recursos hídricos, acaba configurando resultados catastróficos. Nesse sentido, é compreensível que as florestas, que poderiam pelo menos parcialmente equilibrar o excesso de gás carbônico, foram e continuam a ser drasticamente encolhidas e, com isso, perdendo muito de sua capacidade reguladora. Por sua vez, os oceanos já não conseguem absorver as quantidades que seriam normalmente desejáveis, em função dos catastróficos efeitos poluidores, diariamente agravados pela ação antrópica. Outro aspecto, proveniente do acúmulo indesejável de gás carbônico, é o volume paulatinamente maior de ácido carbônico, elaborado durante as chuvas e precipitado em diversas partes do globo. São notórias as ações do mesmo sobre determinados tipos de rochas e minerais. Contudo, é mister reconhecer que, apesar do atual estágio de conhecimento, há necessidade de pesquisas mais amplas e detalhadas sobre as consequências desse ácido, também sobre edificações e obras de arte.
Após essas considerações, não deixa de ser oportuno voltar ao tema do degelo e aos resultados daí esperados. Uma das indagações mais frequentes, é a que se refere aos problemas geológicos relacionados ao derretimento dos vários tipos de geleiras, tanto as continentais, como as calotas árticas e aquelas de vales (ou de altitudes). É verdade que o nosso finito planeta testemunhou, ao longo de sua história geológica, a diversos episódios de avanços e recuos do gelo, dando lugar a sucessivas e importantes modificações no clima global. Tais episódios implicaram não apenas na vigência de grandes glaciações, que avançaram sobre amplas superfícies continentais e marinhas mas, como corolário, na desertificação de outras tantas áreas.
Exemplos concretos de desertificações, geologicamente recentes, são relativamente comuns em diversas partes do sul e do sudeste do Brasil. Tais evidências são bem marcadas nas formas de superfície da Serra do Mar, da Bacia de Curitiba, dos arenitos de Vila Velha, bem como na morfologia atual de áreas basálticas do norte, noroeste, oeste e sudoeste do Estado do Paraná. Esses remanescentes são elementos de grande importância, desde que permitem elucidar e definir as mudanças climáticas do Quaternário possibilitando, igualmente, uma discussão preliminar sobre as prováveis alterações geológico-climáticas na dependência de continuadas e irresponsáveis agressões ambientais.
- RIAD SALAMUNI é professor aposentado e ex-reitor da Universidade Federal do Paraná





