Pela sua contundência, o terceiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, criado em 1988 para assessorar a Organização das Nações Unidas (ONU), foi muito discutido no decorrer deste ano, quando se realizaram a Cúpula da Terra, ou Rio+10, em Johannesburgo, África do Sul, e a Convenção sobre Mudanças Climáticas, em Nova Délhi, Índia.
Concluído em 2001, o documento que resume a opinião de mais de dois mil cientistas de todo o mundo afirma que ''há fortes evidências de que a maior causa do aquecimento global, nos últimos 50 anos, está diretamente relacionada à atividade humana''. Esse aquecimento, que se deve à contínua e crescente emissão de gases na atmosfera, especialmente o CO2 (dióxido de carbono), pela queima de combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo, gás natural), teve início nos primórdios da Revolução Industrial, por volta de 1750, quando o homem intensificou a exploração da natureza em busca de progresso.
Até que os cientistas chegassem a esse consenso, recentemente referendado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, preferia-se acreditar, em especial os governos dos países mais industrializados, que as mudanças climáticas no mundo deviam-se a causas naturais, como a eventual intensificação da atividade geológica do planeta, das manchas na superfície do sol ou das correntes marítimas.
A partir de agora, no entanto, fica claro que a atividade humana tem causado muito mais estragos do que se imaginava, levando-se em conta que a concentração de carbono na atmosfera aumentou em 31% ao longo dos dois últimos séculos e mais da metade desse crescimento foi registrado de 50 anos para cá.
O efeito estufa, decorrente dessa concentração atmosférica de gases, que impede a dissipação do calor, seria, de acordo com o relatório, o maior responsável por alterações bem visíveis na natureza hoje em dia. Entre elas, a antecipação em duas semanas da ocorrência do degelo nos lagos e rios do Hemisfério Norte; a redução em 40% da espessura da camada de gelo do Ártico, nos períodos de verão e outono; a perda de 82% da cobertura de gelo do Kilimanjaro, na África, até então chamado de ''a montanha de neves eternas''; o aumento de 10 centímetros no nível do mar; a maior quantidade e violência das chuvas, por um lado, e maior frequência e intensidade das secas, por outro.
Também os eventos associados ao ''El NiÀo'' e, em menor grau, à ''La NiÀa'' correntes marítimas que costumam passar pelo Pacífico, à oeste da América do Sul em intervalos irregulares de 2 a 7 anos, repercutiriam a pressão do efeito estufa, mostrando-se mais frequentes, persistentes e intensos desde meados dos anos 70, em comparação aos 100 anos anteriores.
Na esteira das reviravoltas climáticas, que a passagem dessas correntes costuma provocar, incluem-se chuvas fortes, inundações, furacões etc. De acordo com a World Health Organization, mudanças desse tipo têm impacto poderoso sobre a vida e a saúde humanas, podendo causar grandes problemas, especialmente nas comunidades mais pobres.
Segundo dados da organização, dos aproximadamente 80 mil óbitos registrados anualmente ao redor do mundo em decorrência de desastres naturais, cerca de 95% deles ocorrem em países pobres. Entre os muitos exemplos que confirmam a tese, a World Health destaca o furacão Mitch, que causou mais de 7.500 mortes em Honduras, Nicaragua, Guatemala e El Salvador; e as piores enchentes, em 50 anos, ocorridas na China e que deixaram um saldo de 4 mil mortos e quase 7 milhões de casas completamente destruídas. Coincidentemente, ambos os desastres aconteceram em 1998, o ano mais quente já experimentado pela humanidade, desde que se começaram a fazer as primeiras medições metereológicas, no fim do século 19.

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