CLIMA DE NATAL Dezembro: um mês diferente?
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domingo, 01 de dezembro de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Estamos a 25 dias do Natal, a 31 de um novo ano, mais próximos das férias, do décimo-terceiro, da troca de presentes, das reuniões familiares, das festas e... parece que nada mudou. As pessoas não estão mais sorridentes ou animadas. As ruas não estão mais agitadas, nem se percebe aquela vibração, uma espécie de expectativa prazerosa que costuma anteceder os grandes momentos.
O fundo musical não é de canções natalinas, mas de anúncios de ofertas - em 10, 20 vezes, a perder de vista - ou de grupos independentes, que dão show, para vender CDs. Em uma cafeteria, o único adereço visível é uma caixinha toda enfeitada com estampas típicas da época, em que se lê ''Feliz Natal!''. A caixinha, naturalmente, destina-se a receber gorjetas para os funcionários. Sempre foi assim ou será que uma das mais representativas comemorações cristãs está ficando cada vez mais materialista?
Para Augusto Vicente, 77 anos, que tem uma forma otimista de ver a vida, ''antigamente, a festa de Natal era mais objetiva, mais verdadeira, mais simples, diferente de hoje em dia, em que prevalecem a bebedeira e o consumismo''. Mas ele não se chateia ou se entristece com as mudanças. ''Com crise ou sem crise, com vitórias ou perdas'', diz ele, lembrando-se de uma derrota recente do São Paulo, seu time do coração, ''o importante é seguir em frente''.
Viúvo há 10 anos, aposentado, Augusto vive sozinho. ''Mas não sou estressado'', comenta, orgulhoso de ainda possuir carteira de motorista com validade até 2004, ''acompanho a evolução''. A principal tarefa de seu dia-a-dia é ''cuidar de mim mesmo''. Tem seis filhos e sete netos, a maior parte morando distante: São Paulo, Brasília, Alagoas, Rondônia. Reúnem-se sempre que podem e o Natal ou o Ano Novo são mais duas oportunidades para esses encontros, mas só isso. ''Todo dia é um dia bom!'', conclui.
Proprietária de uma Lotérica no Calçadão, Ana Cristina Venâncio define seu trabalho como ''venda de sonhos''. E o Natal, de acordo com a sua opinião, ''é muito sonho''. Assim, a época é bem propícia para o seu negócio. Mas, além ''de se auto-presentear com a possibilidade de ganhar na loteria'', ela conta, referindo-se aos seus clientes, ''aparece muita gente apenas para pagar contas atrasadas, como o IPTU, por exemplo''. As pessoas aproveitam o décimo-terceiro para colocar em dia as dívidas acumuladas ao longo do ano.
Com filhos de 17 e 12 anos, Cristina procura, junto com o marido, lembrá-los de que Natal ''é uma festa cristã'' e o fim de ano, um bom momento para ''olhar para dentro de si mesmo'', fazer um balanço a respeito do que passou e planejar o futuro, definindo metas em conjunto. A família costuma comemorar a festa de Natal com a tradicional ceia, precedida de uma oração, mas sem muita preocupação com presentes. ''Hoje, as pessoas estão muito consumistas'', avalia. (continua na página 15)


