Civismo, sim. Democracia nem tanto
No dia das eleições para governador do Estado, deputados e senadores, esta FOLHA defendeu a ideia de que ainda não podemos chamar de democracia a livre escolha dos candidatos pelo sufrágio popular. Por quê? O exercício do voto é livre, mas os caminhos tortuosos da indicação de nomes apontam um processo nada democrático. Aqui no Paraná, apenas como exemplo, um dos candidatos surgiu de uma salada de partidos movidos a interesses. Foi ridículo.
E o evento de hoje como deve ser visto? Escolhas livres são sempre democráticas; eleições sugerem democracia. O processo para chegar até aqui, decididamente, não. Ele é eleitoralmente casuístico, moralmente esfarrapado e politicamente atrasado. Abriga toda sorte de conchavos e a indicação dos candidatos a candidatos, exatamente por essas razões, acaba distorcida, para dizer o mínimo. Sem se balizar por parâmetros democráticos e cívicos, os partidos acabam impondo nomes.
À essa imposição, o eleitor age por exclusão. Sua opção preferencial recai sobre o menos ruim. Nem por isso acertada. Depois dessa indicação vêm as campanhas. A deste ano transbordou em malfeitorias políticas e perversidades. A legislação eleitoral foi jogada no lixo. A máquina pública começou a ser usada em campanha muito cedo, talvez um ano antes da eleição. Discursos de eventos públicos viraram comícios e, em certa altura, discursos estéreis e trocas de acusações. A coisa desandou. A campanha teve uma figura central sofismática, que pregava como se fora ela o candidato. Para a analista política, historiadora e jornalista Lúcia Hipólito ocorreu o que chamou de patrulha da lama, que faz as coisas erradas e debita ao adversário.
O pior talvez não tenha sido nada do que relacionamos acima, nem mesmo a omissão da Justiça Eleitoral. O pior papel foi o da mídia: em alguns canais de TV, as informações foram manipuladas com habilidade; em outros nem houve tanta sutileza.
Tudo isso tem uma desculpa: a nossa democracia é nova. De fato. Mas as transgressões são tantas mesmo para um regime que debuta. Enfim, chegamos ao grande dia. Se o exercício do voto - ofuscado por tantas bandalheiras - não terá o brilho que merece, que pelo menos tudo transcorra em paz.





