Ciro serra abaixo
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terça-feira, 03 de setembro de 2002
René Ruschel 
O candidato do PPS, Ciro Gomes, começa a despencar pelas tabelas. Sem qualquer trocadilho, desce serra abaixo. As últimas pesquisas de opinião pública divulgada por vários institutos chegam ao mesmo denominador: à medida que o ex-governador cearense cai na intenção de votos o senador tucano, José Serra, sobe. Pelo DataFolha, estes índices na última consulta foram literalmente os mesmos. Ciro caiu de 27 para 20%; Serra subiu de 12 para 19%.
Sem dúvida que a causa fundamental deste acidente de percurso, afinal, não se caracteriza por ora como um naufrágio político, deve-se sobremaneira a estripulia verbal do candidato da Frente Trabalhista. A última pérola foi quando questionado sobre o papel que desempenha sua mulher, a atriz Patrícia Pilar, em sua campanha e respondeu que ''o papel principal dela é dormir comigo''. Num país onde a maioria dos eleitores é do sexo feminino, pior que isso só mesmo um sorvete na testa.
No início de maio último, neste mesmo espaço, escrevi sobre um almoço acontecido no Rio de Janeiro, em dezembro de 2001, onde estava presente o diretor de um dos mais importantes institutos de pesquisas e nós - quatro jornalistas. Alguém, em dado instante, pergunta ao sociólogo-diretor se Ciro Gomes tem - à época - espaço para crescer e vencer. ''Teria'', afirmou sem titubear, ''não fosse intempestivo e agressivo''.
O tempo se encarregou de mostrar que os prognósticos estavam corretos. Sua performance a partir do mês de julho foi meteórica. Com um discurso crítico e mordaz contra o governo, experimentou uma ascensão que parecia capaz de colocá-lo definitivamente no segundo turno para disputar com o candidato petista, Luiz Inácio Lula da Silva, a cadeira de presidente da república. O grande erro de Ciro Gomes foi não ter contido seu ímpeto, afinal, o tucano apenas mostra no horário eleitoral seus depoimentos públicos. Como num círculo vicioso, continua fazendo declarações desastrosas que por sua vez deverão ser mostradas aos eleitores.
O bate-boca entre Ciro e Serra torna-se ainda mais lamentável à medida que este imbróglio começa a tomar contornos que podem definir os resultados das eleições de outubro próximo aonde, mais uma vez, os eleitores irão às urnas sem conhecer as propostas dos candidatos à sucessão presidencial. Mergulhado numa profunda crise econômica, financeira, política e social, o Brasil vive momentos de extrema dificuldade, sem que nenhum dos postulantes seja capaz de expor, de maneira concreta, seus projetos de governo. O que importa neste momento é crescer nas pesquisas de intenção de votos e daí vale tudo.
Promessas mirabolantes como criar 8 ou 10 milhões de empregos, que qualquer iniciado em economia sabe que é impossível neste momento; em elevar o salário mínimo, já em maio próximo, para R$ 270 o que, mesmo sendo um valor irrisório para quem recebe, fatalmente quebraria o País. Prometem ações generalistas do tipo maiores investimentos na área de segurança pública, construção de moradias populares, saúde pública eficaz ou melhorias nas condições de ensino, sem mostrar como fazer ou onde buscar recursos para implementá-las.
A sociedade, principalmente a mídia, deveria cobrar dos candidatos uma postura responsável diante dos problemas que afligem a Nação e ficam sem respostas. Os programas eleitorais não passam de monólogos onde cada candidato diz apenas aquilo que lhe interessa, muitas vezes com a maior desfaçatez; ou então, um jogo sujo de acusações mesquinhas e levianas.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


