Circo Garcia fecha as portas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de janeiro de 2003
Valmor Bolan 
Uma reportagem exibida na ''Rede Globo'' mostrou o drama vivido pelos artistas circenses do Brasil. Simplesmente o circo está desaparecendo sem que ninguém tome providências no sentido de evitar esta tragédia cultural. Uma evidência disso é a situação do Circo Garcia, que durante décadas foi a maior casa de espetáculos circenses no país e agora está desfazendo-se de seus animais, vendendo o que tem para pagar dívidas volumosas e dispensando o pessoal, por não ter mais condições de se manter. O Circo Garcia fez recentemente sua última apresentação, para tristeza de todos aqueles que apreciam a arte autenticamente popular.
O circo é talvez uma das mais completas artes do entretenimento, porque reúne teatro, música, dança, show e aquelas especiais técnicas de animação. Por muito tempo, o circo foi um privilegiado espaço de lazer, interação e cultura, tornando inesquecíveis a infância e adolescência de milhões de pessoas no mundo inteiro. Os grandes artistas reconhecem no circo uma influência benéfica na formação criativa da pessoa humana. O maior de todos os cineastas, Charles Chaplin, em um de seus mais belos filmes, ''O Circo'', fez uma grande homenagem a esta arte-síntese de espetáculo e da descontração.
Uma das mais antigas artes do mundo, o circo (palavra que vem do latim e quer dizer ''círculo'') já existia na Grécia, nos famosos hipódromos. Como conta Pierre Bost, ''os espetáculos começavam com uma procissão solene, imitando o cortejo dos generais vencedores. Com a queda do império romano os espetáculos circenses entraram em decadência e os circos foram abandonados ou destruídos. Depois vieram séculos de feiras populares, barracas exibindo atrações exóticas, ilusionismo e malabarismo. Durante o século XVIII grupos de saltimbancos percorriam a Europa''.
É interessante observar que a decadência do Império Romano fez desaparecer os circos, como outras expressões da boa arte. Pierre Bost ainda explica que ''o circo moderno nasce em 1770, quando o inglês Philip Astley (1742-1814) organiza um espetáculo equestre e decide enriquecer a apresentação intercalando aos números hípicos a exibição de saltimbancos, funâmbulos, saltadores e de um palhaço''.
Não é possível que empresas e instituições públicas ligadas à cultura assistam passivamente o desaparecimento dos circos, como se isso não tivesse nada a ver com a preservação do nosso patrimônio cultural. Algo precisa ser feito. Falam tanto na violência, mas o que queremos oferecer como alternativa de lazer saudável às nossas crianças e jovens? O fliperama, o vídeo-game? Até mesmo o futebol-arte está sendo substituído pelo futebol das torcidas organizadas. Fazemos aqui um apelo ao secretários de Cultura de todos os Estados para que não deixe morrer o circo no Brasil. Nos mobilizemos pela sua preservação.
VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor Geral da Faculdade Editora Nacional de São Caetano do Sul.


