Ciranda especulativa
Com a substituição da dívida interna pública logo no início do segundo mandato de FHC, que até então era regulada pelos índices de remuneração dos ativos financeiros que remuneram a poupança da população brasileira, por títulos cambiais, cujos detentores em sua maioria são os grandes bancos estrangeiros, passou desapercebido por muitos analistas financeiros o desastre econômico para o Brasil que tal política causaria.
No mesmo período criou-se a ''Ptax '', que é a média da cotação das negociações diárias do dólar comercial, cujo mecanismo é extremamente primário e frágil a ponto de não se ter um volume proporcional pelo menos ao montante da dívida mobiliária em dólar para fixar-se à cotação do dólar que irá resgatar os títulos cambiais vencíveis no dia seguinte.
Para entender melhor, é só verificar o volume diário negociado do dólar comercial, atualmente em torno de US$ 300 milhões/dia, em que a maioria dos negócios caracteriza-se estranhamente por operações entre instituições, em resumo. Mais parece uma troca de boletos de operações.
Provavelmente para os mandantes do BC, bem como para os analistas dos beneficiários financeiros, o resultado final estava desenhado, mas não se sabe porque até agora não houve um questionamento da sociedade a respeito.
A remuneração que os detentores de títulos cambiais brasileiros estão tendo com a compra de tais títulos adquiridos há um ano é absurda: considerando um dólar que em setembro de 2001 valia R$ 2,30 e o BC aceitou juros de (12% + taxa cambial) o mesmo foi adquirido na época por R$ 2,05 descontando o juro negociado. (Lembrando que o BC recebeu em reais) o mesmo título está sendo resgatado hoje por R$ 4,00, ou seja, uma remuneração de 95,12% em doze meses. Bem diferente do acréscimo salarial do trabalhador brasileiro, bem diferente da taxa de remuneração da poupança interna (7%) e muito aquém da média da rentabilidade das empresas brasileiras (10%), cujos agentes é que terão que produzir internamente para pagar a absurda remuneração de especuladores.
Fica aqui registrado um questionamento sobre a fragilidade da economia brasileira respaldada por uma gestão do BC, que diante deste fato deixa a sociedade estarrecida: será este o preço de uma eleição do candidato governista? Estamos diante de um grave problema, que caracteriza uma lesão ao tesouro nacional a olhos vistos; ou se trata de mais uma trapalhada do atual governo FHC?
Mohamad Jawad Talah Junior é consultor financeiro





