Cipriano Barata e a Independência
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de setembro de 2012
Luiz Carlos Ferraz Manini <br> 
Com a comemoração do Sete de Setembro, deveriam os brasileiros lembrar que, há 190 anos, o Brasil tornava-se independente, livre das amarras que o ligavam a Portugal na condição de colônia. Nesse evento, houve uma ruptura com uma posição que, aos olhos de determinados grupos sociais, era incômoda e por isso indesejada.
Com o surgimento da monarquia, alguns participantes de antigos movimentos pró-liberdade foram esquecidos, caso de Tiradentes, o qual só foi reconduzido à posição de figura importante na História do Brasil após a Proclamação da República. Ou seja, no momento da libertação nacional, elidiu-se uma determinada memória em favor de um discurso que colocava D. Pedro I enquanto o responsável pela liberdade brasileira.
No século 20, algumas pesquisas buscaram desfazer antigos mitos acerca desse período, demonstrando que houve inúmeras batalhas pela liberdade, não sendo a mesma tão pacífica e ordeira quanto a Independência retratada nos discursos oficiais. Desbancou-se a figura de Pedro enquanto líder do processo, uma vez que o mesmo agia movido por interesses diversos de grupos que almejavam o poder.
É no interior desta discussão que algumas personalidades passaram a ser revaloradas e ganharam um mínimo de reconhecimento em sua atuação pela causa brasileira. Uma dessas figuras, em meio a tantas que poderíamos aqui citar, é o jornalista Cipriano Barata.
Nascido em uma família de classe média em 1762, Barata passou sua infância em Salvador, indo graduar-se em Coimbra, destino bastante comum na época para aqueles que desejavam uma melhor formação. Na universidade portuguesa, o jovem baiano entrou em contato com as ideias iluministas, em sua formação em Filosofia, além de ter adquirido conhecimentos em Medicina. É esta última profissão que vai ligá-lo ao povo, sendo que em 1821 seria eleito deputado para as Cortes em Lisboa, nas quais se discutia o futuro das relações Brasil-Portugal.
É de grande importância sua participação nessas discussões, durante as quais chegou mesmo a agredir fisicamente outro deputado baiano que se colocava a favor dos portugueses. Em virtude de suas posições intransigentes quanto aos direitos do Brasil, Barata, junto a outros companheiros, foge de lá, indo se estabelecer no Recife, uma vez que a Bahia passava por sua guerra de independência.
É neste momento que publicará seu jornal, Sentinela da Liberdade, por meio do qual divulgará ideias políticas em particular. O estilo do jornal é característico, uma vez que, além de relatar os fatos, o jornalista tecia considerações a respeito do que considerava o mais correto e justo para o país. Seria, nessas folhas, um dos críticos mais severos da política de D. Pedro I que ia construindo um governo despótico com as limitações que impunha à Constituinte.
Em diversos momentos, Barata cita, em seus jornais, que o Imperador é servo do povo, que deve antes de tudo respeitá-lo pois seu poder deriva da aceitação popular. Defende que os homens devem ter direitos, e esses devem ser expandidos ao maior número possível de pessoas. Declara, em um momento de construção da identidade brasileira, que não só de brasileiros se compunha a Nação, mas de todos aqueles que lutavam e defendiam sua causa.
Em virtude de seus ataques, foi diversas vezes preso, passando por inúmeras masmorras, de onde continuou a editar seu jornal por acreditar que o país merecia um governo que lhe velasse pelos direitos. Passou mais de 11 anos em prisões, vindo a falecer em 1838. Residia no Rio Grande do Norte, atuando como professor, empobrecido e desgastado pelas inúmeras violências que sofreu. Sua imagem ficou esquecida por muitos anos, sendo retomada esporadicamente por autores que lhe reconheceram o valor.
Mesmo hoje, em uma época de descrença quanto ao valor da política, podemos pensar em Cipriano Barata enquanto um exemplo de homem que dedicou sua vida a combater pela causa brasileira, por um país com justiça e mais direitos, podendo ser, com todo o respeito, alcunhado como um de nossos ''heróis'' da Independência.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
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