Amanhã a ‘‘Folha de Londrina’’ faz 50 anos. Os primeiros colonizadores aqui chegaram em 1928. Desde então 70 anos são decorridos, e destes a ‘‘Folha’’ vivenciou 50. Por isso que é expressão comum dizer-se que a história deste jornal se mescla e se confunde com a história da cidade. Hoje são inúmeros os casos, numa mesma família, de quatro gerações lerem juntas a ‘‘Folha’’. Da bisavó (leitora desde a fundação do jornal) até a bisneta.
Quantos anos, quantas histórias!
A edição de amanhã contará muitas delas.
Mas a história da ‘‘Folha de Londrina’’ não é só a epopéia de seus fundadores, jornalistas, gráficos, publicitários, administradores, funcionários, jornaleiros; é também a história da civilização desbravadora que se instalou neste pedaço do Paraná. Cada pessoa se redescobre um personagem nessa aventura. A ‘‘Folha’’ foi o livro dos registros. Algumas vezes adiantou-se, assumindo posições de vanguarda, mas nunca caminhou à margem nem na contra-mão dos anseios da população. A fórmula mágica foi entender e falar a linguagem dos pioneiros, depois aprender novas línguas, à medida que novas gentes vinham chegando e o jornal alcançando territórios mais distantes. Já que os ouvidos da Capital não vinham escutar os clamores do Norte, o jornal do Norte incumbiu-se de fazer que eles ecoassem lá...
A ‘‘Folha de Londrina’’ pautou-se, desde o início, por ser não apenas um jornal propagador de notícias, mas antes um porta-voz das reivindicações da cafeicultura, que foi até duas décadas atrás o sustentáculo econômico deste Estado. Depois, com o fim da era do café, continuou abraçando as grandes causas da agricultura e nunca se envergonhou de levantar essas bandeiras ‘‘caipiras’’. A implantação no Paraná, e estrategicamente em Londrina, do Instituto Agronômico, foi um movimento vitorioso sustentado por este jornal.
Os jipes e os ‘‘fusquinhas’’ da ‘‘Folha’’ levando o jornal diário se embrenhavam pelo sertão paranaense, e encalhando pelos caminhos barrentos sinalizavam que assim não podia continuar... Lá iam os repórteres, e no retorno recheavam as páginas com fotos de caminhões atravessados nas estradas e as enormes filas que se formavam, nos dois sentidos. As lideranças mobilizavam-se em romarias para Curitiba, tingiam com o barro vermelho de suas botinas os tapetes palacianos - a ‘‘Folha’’ junto -, o governo não aguentava tanta pressão e num belo dia, seguindo o rastro dos jipes do jornal, chegavam as motoniveladoras e as máquinas esparramando asfalto...
Dessa forma, a ‘‘Folha’’ foi, também, uma abridora de estradas.
O jornal sempre adubou as boas idéias, e pela magia da letra impressa e tornada pública elas ganhavam dimensões. Qualquer coisa, boa ou má, assume proporções numa página de jornal. Nem sempre um fato é tão importante que mereça publicação, mas torna-se importante porque foi publicado...
Ao longo dos anos, assinantes reclamavam em certos dias, ao receber a ‘‘Folha’’ em casa, que o jornal não tinha nada prá se ler. E o nosso pessoal contra-argumentava que residia aí a informação: que tudo no mundo estava em paz, que nada mais, além daquelas notícias corriqueiras, havia acontecido... Nem uma tragédia, nem um desastre de avião, nem uma nova guerra começando, nem um crime, nem um assalto, nem um incêndio na floresta, nem um pacote governamental... Eram as ‘‘nãotícias’’. (Bom mesmo seria que os jornais se ocupassem apenas das causas reivindicatórias e de exaltar os bons empreendimentos dos homens, sem tanta sublimação às desventuras alheias, de nenhum interesse público; que os jornalistas fizessem as suas críticas não somente para extravasar iras e inconformismos, mas que oferecessem idéias de soluções -ou será um desperdício de fosfato e de espaço nos jornais, tão caro em termos monetários e precioso demais para ser tão fácilmente doado a quem, eventualmente, apenas escreve bem, com certos adereços de erudição, mas nada acrescenta, não enriquece nem deleita o leitor, não melhora nada ao seu redor).
Cinquenta anos de ‘‘Folha’’. Destes, experienciei 43. Quantos anos! Quantas histórias! Cada edição, uma história. Diferente do dia anterior. Completamente nova. Mas carregada das mesmas emoções. Da mesma luta contra o relógio, o que faz do jornalista o único serviçal que louva quando as horas ainda não passaram...
Não se produz jornal para uma semana. Não dá para estocá-lo. Como o pão, tem que ser novo, e ao meio-dia já está velho. O jornal bom de ontem não sustenta a própria imagem. Ele tem, sempre, que ser bom hoje.
Para diluir-se em 20 minutos na mão do leitor.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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