Cinema e aterro sanitário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de dezembro de 2002
Daniel Steidle 
Chamam atenção duas notícias na Folha de Londrina do dia 28/12/02: ''Cinema sem filme'' e ''Estado tem 118 aterros em operação''. A ligação entre as duas notícias pode render algumas reflexões e ações. Precisam acontecer situações absurdas como da reforma de cinemas deixados sem projetores, para haver indignação. Como no entanto estão outras obras públicas difíceis de serem julgadas pela maioria leiga? Algumas realizações do Estado, por falta de crítica, órgãos independentes e falta de uma maior ação da sociedade civil organizada, passam despercebidas até se tornarem sérios problemas.
Os lixões são um exemplo clássico de como o governo tratava uma questão como a do lixo na ausência de envolvimento ativo da população. No Paraná, para substituir os lixões, segundo o artigo da Folha, foram implantados 118 aterros sanitários e muito mais cidades futuramente também terão seus aterros sanitários. Cinema conhecemos, mas um aterro sanitário, o que será isto? Como estão estes 118 aterros sanitários implantados no Paraná? Aterro sanitário pode não interessar a maioria. Prevalecem sobre o tema propagandas e estatísticas otimistas do Estado. Questionadores quanto a forma de implantação dos aterros sanitários são desconsideradas, taxados de ''ecologistas'' ou meramente moradores próximos de um aterro.
O Estado se limita em confrontar reclamação de poucos com a necessidade urgente de uma maioria. Para inibir qualquer participação popular ativa maior, são feitas pelo Estado promessas de aterros sanitários de 1º Mundo. Porém, justificada pela ''pequena'' quantidade de resíduos gerados na maioria dos municípios paranaenses, é dispensado para os aterros o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), e projetos, originalmente aprovados, não são seguidos. Encerra-se o assunto aterro sanitário com o argumento do benefício de uma maioria em detrimento de uma minoria, ainda mais porque um aterro sanitário, mesmo se não tão sanitário, é ''sempre melhor do que um lixão''.
Programas de coleta seletiva do lixo e organização dos carrinheiros e catadores viram assunto para criar imagem. Conteúdo e funcionamento são secundários. A opinião pública se deixa impressionar. Existem, longe dos narizes e das vistas da maioria, os desconhecidos aterros ''sanitários'' que, como válvula de escape para o lixo, dão conta do recado. Tanto faz se uma coleta seletiva é eficiente. Para que se incomodar? Sai governo e entra outro. Não se encontram os responsáveis pelas irresponsabilidades. Acontece o ''empurrar com a barriga'', existem outras prioridades, falta verba e, aparentemente, não está tão ruim assim... Resta saber por quanto tempo o Estado pode sustentar esta atitude e a população ficar indiferente. Precisamos reagir. Na falta de cinema serve o teatro, mas na falta da terra... para onde vamos nos mudar?
DANIEL STEIDLE é presidente da ONG Ambiental de Rolândia, Movimento Nossa Terra.


