Está fazendo cinco anos que morreu o jornalista Aramis Millarch, seguramente o mais importante cronista de Curitiba e um dos mais fecundos escribas do Paraná. Graças a revolução tecnológica do computador, sua obra hoje está rediviva no site que seu filho Francisco e outros admiradores dele criaram na Internet. Ao referir-se ao fato, Francisco disse-me que o site incomoda muita gente. Entendi perfeitamente quando ele referiu-se a incomodar os poderosos.
Aramis sempre foi uma pessoa que não primou por agradar. Gostava-se dele ou não gostava-se. Não era, e nunca foi uma pessoa de fácil relacionamento, justamente por não ter o hábito de ceder. Quando embirrava com uma coisa ou com uma pessoa, não tinha jeito. Aliás, tinha: bastava você convencê-lo de que estava errado. Uma vez, referindo-se a certa funcionária burocrata do governo do Paraná, que atrapalhava as coisas na Secretaria da Cultura e que fora defenestrada, ele, no Tablóide, utilizou a expressão desratização.
Comentei com ele que a expressão fora pesada. Aramis concordou comigo e, para minha surpresa, se penitenciou publicamente. Esse era o Aramis que eu gostava. A mim protegeu com sentimento de pai, embora eu fosse muito mais velho do que ele. Como fazia com todos os seus amigos, ele sempre indicava meu nome para os eventos, onde quer que ocorressem.
Muitas vezes fui convidado a atuar em festivais de música como jurado, por indicação do Aramis. Isso ele fazia com os amigos, como com o Zuza Homem de Mello, com o Herminio Bello de Carvalho, com o Jaguar, com o Roberto Moura, com o Sérgio Cabral, com o professor Alceu Swabb, enfim, sempre que ele podia, compartilhava seus convites e indicações com os amigos. Francisco, seu filho, era pequeno e, talvez não se lembre, mas para o desassossego de Marilene, sua mulher, Aramis costumava levar aquele mundo de gente, amigos e penetras, sempre ao fim dos shows dos cantores que iam a Curitiba, à sua casa.
E o que é mais sério, depois da janta. Isso quer dizer que, lá pras 3 ou 4 da madrugada, ele chegava com a entourragem na casa. Subíamos todos, irresponsáveis, cheios de álcool e embriagados também com os espetáculos e fazíamos a maior zorra na sua casa, para desespero da Marilene. Foi aí que um dia eu o aconselhei: Chamei-o ao canto e disse-lhe: ‘‘Rapaz, não está certo o que você vem fazendo. Não tem mulher que aguente. Por mais santa que seja, e eu considero a sua uma santa, pode aguentar esta zorra toda. Por que você não compra um outro imóvel, onde colocará seus discos, livros, filmes etc, e para onde poderá levar seus amigos?’’
Ele ouviu-me com atenção e, dias depois, me comunicava que estava pleiteando financiamento via BNH para comprar o imóvel que sugeri. Essa é a origem do Estúdio Vinícius de Morais. Era por isso que sempre cobrei do Aramis um degrau, no estúdio, com o meu nome: ‘‘Degrau Edilson Leal’’. Esse era o coração generoso do Aramis.
Se atritava com facilidade, pois era instransigente nos seus princípios. Lembro da briga dele com algumas personalidades de Curitiba, uma das quais assisti pessoalmente. Mas se a pessoa o convencesse que ele estava errado, logo ele se reconciliava. Para comigo pessoalmente, teve gestos de imensa grandeza. Quando eu, desempregado e sem escritório, fui para Curitiba fazer um curso de aperfeiçoamento para enfrentar os concursos de Promotor, ele logo ofereceu um cômodo no Estúdio Vinícius de Morais, e logo, (veja o grau de confiança e amizade) forneceu-me cópia da chave para eu entrar e sair quando quisesse.
Eu, ajudado pelos amigos que me auxiliaram muito naquela oportunidade, comprei um colchão e coloquei em um dos cômodos do estúdio. Passava dia e noite estudando. Um dia o Aramis entra com uma televisão e coloca no meu quarto. Eu digo: ‘‘Pôxa Aramis, pra que eu quero TV?’’ E ele: ‘‘Para se informar’’. Era assim. Muitas vezes, alta madrugada, ele estava batucando a máquina de datilografia, produzindo. Às vezes ficava até o dia amanhecer. Eu nunca vi pessoa com a capacidade de produzir textos como o Aramis.
Uma vez, estando comigo e Cláudia, minha mulher, soube que ela defendia uma tese de mestrado na USP, relacionada com habitação. Transformou a conversa em entrevista, e puxou o famoso papel e tome perguntas. Dias depois, li no tablóide: ‘‘Professora faz análise dos cinco conjuntos de Londrina’’, ou coisa semelhante. Um bonito texto, que eu, também jornalista, chefe de reportagem da Folha, nem me toquei.
Aprendi muita coisa com Aramis. Principalmente a entendê-lo. A perceber que sobre a capa de instransigente, escondia-se um fabuloso ser humano, capaz de se comover e amar as coisas mais simples desta vida. A querer um bem louco a sua Curitiba, que ele defendia com unhas e dentes. A mim preocupava sua despreocupação para consigo mesmo.
Muitas vezes, eu, tarde da noite, levantava-me com fome e ia comprar lanche naquela padaria que fica a poucos quarteirões do estúdio e perguntava: ‘‘Aramis, queres alguma coisa?’’. E ele, interrompendo o batucar da sua intimorata Olivetti, como diria o Stanislaw Ponte Preta, erguia a cabeça e dizia: ‘‘Traga-me um hamburguer com tudo que eu tenho direito’’.
Quando voltava, ficava abismado com ele empanturrando toda aquela gordura no estômago, respingando banha por todos os lados, conforme registrou o jornalista Carlos Maranhão, em sua crônica sobre a morte do Aramis. Era aquilo mesmo. Comia com uma ganância de menino guloso, sem se importar com o mal que aquilo ia causar em seu coração. Um coração generoso, puro e bom, do qual eu sinto uma imensa saudade e que tanta falta vem fazendo ao jornalismo do Paraná.

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