Estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas revelou que o consumo de cigarros aumentou ao longo da pandemia. De acordo com a pesquisa, 34,3% dos entrevistados que se declararam fumantes aumentaram o consumo de cigarros por dia durante o período de isolamento social: 22,8% aumentaram em dez, enquanto 6,4% em até cinco e 5,1% chegaram a 20 ou mais cigarros diários.

O dado é assustador. Se em tempos normais, o cigarro já é responsável, anualmente, por sete milhões de mortes em todo o mundo (10% delas, ou 800 mil óbitos são de 'fumantes passivos', que não tragam mas inalam a fumaça de alguém), segundo números da OMS (Organização Mundial da Saúde), em um momento em que o Brasil se vê no epicentro de uma pandemia sem precedentes — encostamos nas 120 mil mortes por Covid-19 em nosso país na última semana de agosto (e mais de 3,7 milhões de casos confirmados — o cigarro reforça seu caráter de arma letal.

Boletim mais recente divulgado pela Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas), de 2019, com números de 2018, revela que 9,3% dos brasileiros afirmaram ter o hábito de fumar, em 2018, contra 15,7%, em 2006.

O cigarro e o tabaco são nocivos à saúde em qualquer momento. Na pandemia, o tabaco pode oferecer riscos maiores. É predador do sistema de defesa do corpo humano; torna o fumante vulnerável a doenças infecciosas por atacar todas as barreiras que impedem a entrada de vírus e bactérias. A fumaça ou vapor do tabaco afeta diretamente a resposta imune do organismo.

Em artigo publicado na revista Saúde, os colegas Alberto José de Araújo, médico sanitarista e presidente da Comissão de Combate ao Tabagismo da AMB (Associação Médica Brasileira) e Luiz Maltoni, cirurgião oncológico e diretor-executivo da Fundação do Câncer, destacaram com propriedade que fumantes, ex-fumantes e portadores de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) apresentam aumento expressivo da enzima ECA2, abundante no tecido dos pulmões e que permite que o coronavírus infecte as células locais, nas vias aéreas inferiores. O que nos leva a entender que o uso contínuo do cigarro resulta no aumento dos receptores que contribuem para a entrada do vírus no corpo humano.

Mais: fumantes são mais suscetíveis a doenças do coração. E por ser um conhecido gerador de ansiedade, em um momento como o atual o tabaco pode agravar o estado de saúde mental do fumante, já fragilizado pelo isolamento e pelas informações preocupantes que nos cercam. Soma-se ainda o risco inerente ao comportamento natural do fumante: a mão levada constantemente à boca, a inalação direta da fumaça do cigarro e o compartilhamento não raro de cigarros e narguilés.

Assim, se faltava um motivo ainda maior para a interrupção do hábito, a Covid-19 precisa ser vista como a razão definitiva para um ponto final no vício.

Se o tão falado "novo normal" ainda é envolto em uma névoa de mistério, que o primeiro passo para esse momento seja bem longe da fumaça do tabaco. Agora e quando tudo isso passar. Porque vai passar.

Rafael Mendonça dos Santos é médico da família e comunidade da Clinipam, em Curitiba

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