Ciência e tecnologia na pauta nacional
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
Ronaldo Sardenberg 
No compasso do mundo moderno e do mercado globalizado, em que o conheci mento científico e tecnológico passou a ser o principal fator de agregação de valor ao desenvolvimento, o Brasil projeta seu futuro, definindo diretrizes e estratégicas para o fomento na área de ciência, tecnologia e, principalmente, inovação. Iniciado formalmente no ano passado, na forma de um ciclo de debates envolvendo todos os atores sociais comprometidos com o tema, esse processo culminará, em setembro, na Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, da qual tiraremos um plano decenal para o setor.
A Conferência Nacional ocorrerá em Brasília, 15 anos após a primeira conferência, e sua realização é um passo importante para o amadurecimento do Brasil. Seu impacto tremendo faz com que proponhamos a reedição do evento em 2005 para aferir o cumprimento de metas ou reavaliá-las.
A exemplo do que ocorrerá em todo o País, algumas capitais fazem nos dias 16 e 17 próximos uma última rodada de reflexões regionais antes da conferência. Florianópolis, Belém, Maceió, Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro receberão cientistas, empresários, trabalhadores, parlamentares, governos e instituições e dirão onde e como devem ser feitos esforços para que a ciência, a tecnologia e, especialmente, a inovação se constituam em instrumento para o avanço do País.
Além de buscar a criação de pólos de inovação locais, a discussão absorverá para o debate grandes temas de interesse internacional, que estão na agenda do dia do governo, como biotecnologia, tecnologias da informação, nanotecnologias, materiais avançados e meio ambiente, pois é clara a consciência da necessidade de vasculhar os benefícios propiciados pelas ''últimas'' fronteiras do conhecimento e pelas chamadas tecnologias de ponta, otimizando a pesquisa.
No centro das discussões estará a necessidade de adoção de novas modalidades de gestão que privilegiem um ambiente inovador e a meta de resultados mais imediatos. Esse é o percurso para que o País adquira o cenário apropriado para redefinir políticas e instrumentos necessários à consecução dos objetivos de médio prazo em C&T, pelos quais se busca propiciar benefícios diretos à qualidade de vida aos cidadãos.
Pela relevância do tema, o Brasil reivindica a participação do maior número de atores na conferência. Assim se deseja, pois a sociedade, especialmente o setor produtivo, é a principal protagonista e beneficiária do projeto de fomento estratégico em C&T, destinado a superar os déficits sociais por meio de um modelo de desenvolvimento em bases sustentáveis.
O êxito do crescimento sustentado num mundo integrado e competitivo depende da capacidade de inovação tecnológica das empresas. Trata-se de realidade mundial. Nos países desenvolvidos, competitividade, exportações e geração de empregos ocorrem porque seu desenvolvimento científico e tecnológico transcorre em um ambiente indutor da inovação e de condutas pró-ativas do setor privado. O mesmo deve ocorrer no Brasil.
Além de atrair a participação empresarial, temos de vencer outros desafios. Devemos conhecer melhor nosso território, nossos problemas, encontrar soluções para o desenvolvimento. Por esse caminho responderemos às transformações que varrem o mundo e passaremos a ocupar o lugar que está reservado para nós no cenário mundial. Urge o debate de questões centrais, como Amazônia, Semi-Árido, biodiversidade, ciências do mar, a pobreza, além dos temas de atualidade mundial.
O esforço que fazemos em favor da ciência e tecnologia no Brasil ocorre num momento único em que reunimos condições e instrumentos inéditos para superar as desigualdades internas e redefinir de modo pleno e equitativo sua inserção na sociedade e na economia mundiais. O problema de financiamento à C&T, por exemplo, foi superado com a adoção dos fundos setoriais, acompanhados da desconcentração dos investimentos e de esforço de pesquisa, em benefício paritário de todas as regiões, que hoje compartilham conhecimento e pesquisa em redes, pela Internet. Tudo isso é importante, mas não o bastante. Por isso, a conferência; por isso a convocação ao engajamento social.
Se hoje, contando exclusivamente com recursos do Estado, já ocupamos posição intermediária no contexto mundial, ao lado de China, Índia e Coréia do Sul, imaginemos onde poderemos chegar se passarmos a usufruir da parceria estratégica e financeira do setor produtivo brasileiro.
- RONALDO SARDENBERG é ministro da Ciência e Tecnologia


