A diferença entre o religioso e o místico é que este avança além dos limites conhecidos e busca o experimento direto com a sua realidade transcendente, o ponto de fusão dele com Deus, já e imediatamente. E que Deus é este? Não um ser, supostamente à parte, mas o poder inerente que abarca todas as coisas e portanto está em cada ser e em cada coisa. Se a humanidade se libertar das cadeias que a amarram aos dogmas das doutrinas dominantes, poderá encontrar esse ponto de conexão que a colocará frente à frente com a sua real dimensão.
Uma nova ciência então se instalará, e esta será dominante: a ciência do auto-conhecimento. Será quando o homem conhecerá a si mesmo e saberá o que ele é. Florescerá então a consciência da verdade que jaz adormecida em seu ser, e não mais farão sentido as vozes que ecoam de fora e que o fazem imaginar-se pequeno e obscuro. Uma nova igreja então se edificará, mas esta não terá nem paredes e nem abóbadas e nem mandamentos.
Descobertas de uma biblioteca gnóstica no Egito e de um trecho do evangelho secreto de Marcos mostram que os cristãos ''daqueles tempos'' tinham um conhecimento mais vasto sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. ''Vim para mostrar as possibilidades humanas. O que foi criado por mim, todos os homens podem criar. E aquilo que sou, todos os homens serão. Estes dons pertencem a todos, porque isto é o pão e é água da vida''. Palavras do mestre nazareno. O mesmo que ''o que eu faço vós também o fareis, e ainda melhor'', a mostrar a divindade e o poder em cada um. Mas ao invés de seguir os ensinamentos do mestre, os homens têm preferido adorá-lo, na comoda posição de elege-lo salvador, sem fazer nenhum esforço para reacender a luz já opaca por falta de uso, que existe dentro de cada ser e que será a única que o tirará da treva da ignorância.
O reaparecimento desses ensinamentos, suprimidos pelas igrejas tradicionais, formarão - como já formam - o Novíssimo Testamento, na verdade nada novo, mas apenas ocultado. Um admirável mundo então florescerá e o homem encontrará o caminho e a paz, pela compreensão acerca de si mesmo. Nesse estágio não haverá mais temor, que é o inimigo da evolução.
Mas esse evento poderá ocorrer agora, neste exato momento. Foi o homem quem desconectou esse elo, estabelecendo a idéia de separação. Só a ele incumbe reatá-lo, e se não o fizer, nenhuma mão divina o fará. Essa reconexão ocorrerá pela simples consciência do homem de que não está isolado do conjunto de todas as coisas, mas que é parte dele e o compõe, e que salvar-se, como se diz, é apenas compreender isso. O homem deve mudar o enfoque acerca de si mesmo. Deve olhar-se a partir de cima, e não o inverso; em outras palavras, visualizar-se a partir do seu Eu divino em relação à sua fisicalidade; ver-se como parte de Deus olhando para o corpo carnal em que ele, homem, se encontra. Aí terá uma nova visão e conhecerá a si mesmo.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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