CIÊNCIA DE PONTA - Um astro pé-vermelho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de outubro de 2010
Fernando Rocha Faro<BR> Reportagem Local 
O lavrador vive com os pés no chão. O astrônomo, por sua vez, está sempre com a cabeça voltada para o céu. Mundos completamente distintos fazem parte da mesma história de vida. Um dos profissionais mais respeitados da área no mundo, Augusto Damineli saiu da roça no Norte do Paraná para fazer descobertas científicas de repercussão mundial sobre os astros.
O maior feito desse ibiporãense foi decifrar um mistério acerca de Eta Carinae, a maior e mais luminosa estrela da Via Láctea. Para se ter uma ideia, este astro brilha em uma intensidade 5 milhões de vezes superior à luminosidade do Sol. Após anos de observação e estudo, Damineli desvendou o enigma: Eta Carinae não é apenas uma, mas um par estelar. São duas estrelas que giram em torno de um centro comum.
A descoberta repercutiu no meio científico. Inúmeras reportagens foram publicadas no mundo todo. E agora o cientista lançou-se a um novo desafio: medir a massa da estrela companheira. ''Olhamos para cima tentando ir além das fronteiras, tentando descobrir coisas que ninguém nunca viu, que ninguém nunca pensou. O que me motiva é descobrir coisas novas'', aponta o astrônomo pé-vermelho, que é professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP).
Como surgiu seu interesse por astronomia?
Nasci em 1947 na Água do Jacutinga, em Ibiporã. Até os 12 anos, trabalhei na roça. Quem nasce na roça trabalha desde cedo. Em casa, embora minha mãe fosse analfabeta, tinha uma regra: enquanto estivesse fazendo lição não ia para a roça. E eu sempre fiz lição com muito capricho. O lápis é mais leve que o cabo da enxada. Aí fui estudar em um seminário em Assis (SP), mas não tinha vocação para ser padre.
Depois, já no curso de Física da USP, eu não conhecia praticamente nada de astronomia. Achava que o último astrônomo tinha morrido há pelo menos 500 anos. Até que veio o professor José Antonio de Freitas Pacheco para dar uma conferência sobre explosões de supernovas, poeira das estrelas. Aí me interessei pelo assunto. Ele estava montando o Departamento de Astronomia na USP e me deu uma bolsa. Além de fazer o que gosto ainda receberia. Na roça sempre se trabalha olhando para baixo. Aí fui trabalhar olhando para cima. Inverti a situação.
Qual foi a sua descoberta sobre a estrela Eta Carinae e qual a repercussão desse feito?
Na astronomia, como na medicina, cada um tem sua especialidade. Eu já comecei a trabalhar com estrelas de grande massa. O pessoal era mais ligado a estrelas pequenas, como o Sol. E a Eta Carinae já era famosa há quase 200 anos. Era usada como referência pelos navegadores no século XIX. Aí ela se cobriu de poeira e ficou escondida. Virou um mistério.
Como eu observava estrelas parecidas, resolvi observá-la todas as vezes que ia ao laboratório por anos a fio. E como todas as beldades, quando você fica olhando muito, ela faz algum gracejo. E em junho de 1992 ela apagou o equivalente a 60 sóis em uma única noite. Mas como ela brilha como 5 milhões de sóis, quem não estivesse atento não notaria nada. Passei a medir a intensidade da estrela com mais frequência. Foi quando descobri que havia duas e não uma estrela.
Como foi a recepção dessa descoberta no meio científico?
Ninguém acreditou. As pessoas do exterior duvidaram. Disseram que eu usava um ''telescópio da floresta''. Então tive que mostrar mais serviço e em 1993 fiz a previsão de que ela ''apagaria'' de novo em dezembro de 1997. Passei a ser convidado para participar de congressos em outros países. E quando (o apagão) aconteceu em dezembro de 1997 foi festa. Foram publicadas matérias no mundo inteiro. Foi organizado um congresso só para esse assunto.
Como está o Brasil em termos de estrutura para pesquisa astronômica em comparação com outros países?
O Brasil não está tão desenvolvido quanto a Rússia, por exemplo, mas temos muitos telescópios, inclusive que operamos via internet nos Andes. Temos cem noites por ano para pesquisa. Somos sócios em dois dos maiores telescópios do mundo. Para o Brasil, que tem apenas 250 astrônomos ativos, a estrutura é boa. Temos crescido a 1% ao ano há mais de 30 anos em termos de publicações científicas da área. Somos 1% dos astrônomos e publicamos 2% da literatura mundial. Nossa média é maior do que a de outros países.
Qual é a importância da pesquisa astronômica para o desenvolvimento científico do País?
O cientista olha para cima tentando ir além das fronteiras, descobrir coisas que ninguém nunca viu. Faz mais de 2 mil anos que a humanidade se dedica a pensar coisas que ninguém nunca pensou. O que me motiva é descobrir coisas novas. A astronomia não é uma atividade para os olhos. É para a mente.
Quando Isaac Newton quis medir a força da Terra na Lua faltava um ramo da matemática chamado cálculo integral diferencial, que ele inventou. Hoje grande parte do PIB (Produto Interno Bruto) da humanidade está baseado nesse cálculo. Não tem ponte ou edifício que fique em pé sem ele. Grande parte do desenvolvimento da humanidade vem desse interesse que Newton teve pela Lua.
A viagem à Lua não foi um gasto de trilhões de dólares, mas um investimento. Gerou muito mais riqueza do que o que foi gasto. Telecomunicações, supervisão ambiental, miniaturização do computador, celular vieram dessa jornada. Tudo o que se investe em novidade volta em forma de riqueza que ninguém vê. O desafio é enxergar quanto coisa saiu dessa procura no espaço.
Qual é o seu próximo desafio na pesquisa em relação à Eta Carinae?
É medir o peso da estrela companheira da Eta Carinae. Como está escondida atrás de outra estrela, é um desafio que nunca ninguém conseguiu realizar. Acho que estamos chegando lá.
É possível observar a Eta Carinae a olho nu?
Não. Ela é visível do começo do outono até o inverno, mas só com telescópio. Fica à esquerda do Cruzeiro do Sul. É uma nuvem visível, mas dífícil.


