O cientista é, em geral, uma assalariado que presta serviços a universidades ou a institutos. Vive de seu emprego, comumente em tempo integral e dedicação exclusiva. À ciência, o cientista (também chamado de ‘‘trabalhador científico’’) dedica toda a sua vida em todas as suas horas; idéias sobre um novo projeto de pesquisas, sobre um termo a ser acrescentado a uma fórmula ou sobre como interpretar, de maneira simples, algo que a todo mundo parece muito complicado podem aparecer-lhe enquanto está fazendo a barba, tomando banho ou cuindando dos filhos que brincam em um parque. Tempo integral significa 24 horas por dia e sete dias por semana; dedicação exclusiva quer dizer amor.
Vivendo de seus vencimentos, o cientista muitas vezes percebe salário insuficiente para que ele e sua família tenham um nível de vida satisfatório e tranquilo. Em tempos de inflação, perde o sossego que é necessário ao próprio germinar de idéias novas. Ele vê que os preços dos supermercados estão subindo sempre como sinal de que baixa o poder aquisitivo de seu salário. Para quem vive do capital, a inflação pode ser uma benção; para ele, é uma maldição abominável. Não tanto por ele mesmo, mas principalmente pelos que dele dependem. Ele sempre deu tudo à ciência, até os seus sonhos. Parece justo que não deva padecer, com sua família, as incertezas de um trabalho mal pago.
O cientista tem um endereço certo: uma rua, um prédio, um apartamento, uma cidade. Mas ele não vive ali, ali ele apenas mora. A ciência é internacional e, por isto, a mente do cientista também é internacional. Como diria Pasteur, ele sabe que tem uma pátria, mas sabe também que a ciência transcende os limites de todas as pátrias. Por isto, o que ele faz e transpõe para os chamados ‘‘trabalhos científicos’’ (que os americanos chamam de ‘‘papers’’) deve poder ser lido por colegas seus de todo o mundo: do Japão, da Rússia, da França, de Portugal, de Cuba e do Brasil. Em que língua deve redigir os seus trabalhos e em que revistas publicá-los para alcançar todo o mundo? A atual língua franca da ciência é o inglês e as revistas científicas de maior circulação mundial estão, em geral, nos Estados Unidos e na Europa. Consequentemente, o cientista deve redigir seus trabalhos em inglês e publicá-los naquelas revistas. Estas são exigentíssimas. Têm, em geral, alto índice de rejeição de trabalhos. Cada trabalho que recebem para publicação é analisado por dois cientistas especialistas no assunto e só é publicado se consegue a aprovação de ambos. Em caso contrário, o trabalho é simplesmente rejeitado. Essas revistas se honram ao referir o seu alto índice de rejeição. Uma, editada em Londres, há pouco tempo noticiou que seu índice de rejeição era de 70%. Sabendo tratar-se de revista de alto gabarito internacional, os próprios cientistas já selecionam os melhores entre os seus melhores trabalhos para serem enviados a ela. E ela ainda rejeita 70% deles!
Pode acontecer que um dos críticos diga que um dado trabalho pode ser publicado, mas que deve ser melhorado. Aí surgem as críticas, os reparos, as correções, as emendas, etc., que o autor do trabalho deve responder, aceitando ou não o que o crítico achou mau e defendendo-se tanto quanto possível. E carta vai, e carta vem. Afinal, o artigo pode acabar sendo rejeitado, ou aceito!
Como se vê, trata-se de um longo processo, que começa quando a idéia da investigação aparece e só termina quando o trabalho é finalmente publicado. Antigamente, o autor recebia um grande número de pedidos de ‘‘separatas’’, mas hoje, com a facilidade das cópias-xerox, cada interessado manda fazer a sua cópia e, por isto, a curto prazo, nem o autor do trabalho fica sabendo se causou impressão internacional com seus fatos, suas idéias, suas explicações, etc.
Há, no entanto, algo que permanece: a revista de alta penetração internacional ficará guardada nas bibliotecas e, mais cedo ou mais tarde, alguém acabará lendo aquele trabalho que deu tanto trabalho para ser publicado. E assim, sem esperar, o autor receberá uma carta do Paquistão ou mesmo de Belém do Pará com perguntas e com um pedido de orientação. Nesse dia, ele comemorará sozinho o seu momento de glória.
Em resumo: a ciência não é assunto paroquial, nem municipal, nem estadual e nem nacional. A ciência é assunto internacional. Por isto, se o coração do cientista está na cidade em que mora, o seu cérebro voa por todos os lugares do mundo! Em outros termos (e com perdão das palavras), o seu coração é local, mas a cabeça está globalizada!
- NEWTON FREIRE-MAIA é cientista e professor titular emérito da Universidade Federal do Paraná

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