Referimo-nos, em um dos artigos desta série, à geometria de Euclides e às geometrias não-euclidianas. Aqui estão mais umas informações curiosas. Se você desenhar um triângulo sobre uma mesa, a sua geometria será a de Euclides; se desenhá-lo sobre uma sela, a geometria será de Lobatchevsky; se, porém, desenhar sobre uma bola, a geometria que aí se aplica é a de Riemann. Como vivemos sobre uma bola e só vemos bolas quando olhamos o firmamento, o nosso Universo se rege pela geometria de Riemann e não pela de Euclides.
Um fato interessantíssimo neste contexto é que Einstein descobriu que nosso Universo seria regido por uma geometria feita de curvaturas positivas e, não de planos, antes de saber que já existia a geometria que ele procurava. Isto é: ele era um físico genial, mas não dispunha dos conhecimentos mais sofisticados de um matemático. Teve de procurar um seu amigo matemático, que o informou sobre a geometria de Riemann. Não há vergonha, pois, em se fazerem perguntas; uma boa maneira de se diminuir a ignorância da gente consiste justamente em se perguntar sobre algo incluído nela a algum amigo que saiba mais do assunto.
Finalmente, repetimos aqui o que já foi dito antes: compete aos governos colocar o mundo da Ciência ao alcance do povo, não apenas através de escolas gratuitas mas também de museus, centros científicos e programas de rádio e de televisão. A Ciência é uma forma de diversão e todos devem poder se divertir com ela.
Mais uma palavra sobre os tipos de segurança que a Ciência pode nos oferecer. Chamam-se ‘‘protocolos’’ os cadernos que o cientista mantém no laboratório e nos quais anota os resultados de suas medições, pesagens etc., e de suas experiências mais simples. Cada um dos achados ali inscritos é uma ‘‘declaração protocolar’’, que pode estar certa ou errada. Ele próprio corrige as erradas, dizendo, por exemplo: ‘‘Aquilo que escrevi na manhã do dia tal está errado; hoje, fui mais cuidado e verifiquei que...’’
Essas ‘‘declarações protocolares’’ que forem achadas entre as riquezas deixadas por um cientista, e não foram corrigidas por ele mesmo, devem estar certas – isto é, representam a verdade aristotélica. O que foi dito deve corresponder ao que é. Um outro cientista poderá conferir e verificará a coisa. ‘‘Sim, está certo’’ – dirá ele. Ou então: ‘‘Está errado.’’ E corrigirá o erro.
Infelizmente, isso só serve para as declarações ditas protocolares. Para outros problemas, mesmo que sejam aparentemente simples, não se pode fazer o mesmo. Se, por exemplo, analiso amostras de uma dada população de um certo inseto, num certo lugar do mundo, para que se verifique se estou certo ou errado será necessário que se volte àquele lugar, na mesma época, e se estude do mesmo jeito a mesma população de inseto... Isso é impossível. Voltar lá – é possível. Estudar a mesma espécie de inseto – é possível. Mas voltar lá na mesma época em que lá estive – isso nunca será possível. Aceite-se ou negue-se o que eu disse, mas ninguém poderá dizer que minha declaração era falsa...
E sobre as teorias? Elas são o que de mais importante a Ciência pode ter. E podem ser prováveis, mas nunca provadas! Por definição, uma teoria nunca poderá ser provada. Vejamos uma modesta enunciação de uma das mais importantes e aceitas teorias de toda a Ciência – a teoria da evolução biológica: todos os seres vivos, atuais e do passado, derivam, por transformações sucessivas, de seres vivos diferentes que viveram anteriormente.
Em outros termos: as espécies e raças atuais e do passado não surgiram individualmente e já prontas, mas evoluíram de outras espécies e raças. Esta é uma teoria altissimamente corroborada e perfeitamente integrada ao fabuloso edifício da Biologia moderna, com a Genética Molecular e tudo o mais deste começo de Terceiro Milêncio.
Em resumo: as teorias, por definição, não podem ser provadas. Por isso, quem estiver esperando que se prove a Teoria da Evolução para vir a aceitá-la, procure uma confortável cadeira e espere sentado.
- NEWTON FREIRE-MAIA, paranaense de Curitiba, é cientista há 55 anos, tendo iniciado suas pesquisas em 1946, no departamento dirigido pelo Professor André Dreyfus, na Universidade de São Paulo. Há muitos anos é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e foi galardoado por muitas instituições, como a Academia Nacional de Medicina e pela National Foundatin for Ectodermal Dysplasas. Foi cientista da Organização Mundial da Saúde (Suíça) e bolsista da Fundação Rockfeller (EUA) e é professor titular emérito sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba
O jornalista Luiz Geraldo Mazza encontra-se em férias.