Ciência: beleza, gratuidade e segurança (4)
Como vimos, há dois tipos fundamentais de Ciência: a ciência-disciplina (simplificadora, dogmática e conservadora) e a ciência-processo (cética, dialética e revolucionária). A primeira é ensinada nas escolas, do 1º grau ao doutorado; a segunda é a que se faz dia a dia. Os autores da primeira são os professores; os autores da segunda são os cientistas.
Por outro lado, há dois tipos básicos de ciência-processo: a ciência bem-comportada, que se faz dentro dos paradigmas geralmente aceitos e, principalmente se bem-feita, não revela grandes novidades; e a ciência malcomportada, que desafia os paradigmas viventes e cria novos paradigmas. A primeira, também chamada de ciência normal, é a que se faz em 99,9% dos casos; a segunda é raríssima e representa as revoluções desencadeadas por gênios tais como Galileu, Kepler, Newton, Darwin e Einstein.
A primeira amplia e aperfeiçoa as estradas já abertas, enquando a segunda abre estradas novas. Os cientistas que fazem a segunda fazem também a primeira. Aquela é um banquete (ocorre de vez em quando), enquanto a primeira é o arroz-com-feijão de cada dia. Não se pense que Einstein só tenha participado de banquetes. Ele também comia o seu arroz-com-feijão diário.
Foi dito também que existe uma absoluta gratuidade na investigação científica. Isto serve integralmente para o passado, uma vez que atualmente muitas empresas também possuem laboratórios de pesquisa, empenhados em linhas de investigação de seu interesse (interesse econômico, diga-se de passagem). Há mesmo pedidos de patente para algumas descobertas. É o que se poderia chamar de prostitucionalização da Ciência. Achamos que isso está errado. Os resultados da investigação científica devem estar abertos a todos. Ela deve ser custeada com dinheiro do povo e, consequentemente, seus resultados ao povo pertencem. A disseminação desses deve ser gratuita, aberta a todos.
Dissemos também que a Ciência não pode ser dogmática. Suas descobertas, em geral, não representam verdades absolutas e eternas; são apenas quase-verdades, aproximações da verdade, sempre dispostas a mudanças para se tornarem mais quase-verdadeiras. O que muda é o grau de quase-verdade que elas contêm. Como bem diz o professor Newton Carneiro Afonso da Costa, ex-professor da UFPR e atual professor da USP, uma teoria quase-verdadeira será sempre quase-verdadeira, mesmo quando substituída por outra. As teorias erradas do passado eram quase-verdadeiras na sua época.
Nunca se perde a contribuição dos antigos cientistas. Ela orienta os cientistas atuais e faz com que estes não repitam as teorias quase-verdadeiras antigas, mas as usam para construir novos edifícios quase-verdadeiros. Newton continua a ser um gênio mesmo depois de Einstein. Mendel é um cientista sem par, mesmo depois das correções que sofreu e das integrações que ensejou. Lamarck, às vezes ridicularizados por causa da sua teoria da herança dos caracteres adquiridos, continua a ser o grande cientista que sempre foi. Correções e integrações revelam os gênios de antigamente.
Mesmo os grandes livros do passado, que se tornaram clássicos pelas inovações que trouxeram (os de Newton e os de Darwin, por exemplo), devem ser lidos com grande cuidado e redobrada atenção só por pessoas devidamente cientes dos progressos que ocorreram depois de suas publicações. Assim é que os livros de Galileu e os dois acima citados estão aí para nossa inspiração e deleite, mas não devem ser lidos por todos. Só a um certo grupo de pessoas está aberta a leitura dessas obras maravilhosas.
Para finalizar, perguntamos: de onde vêm as idéias que borbulham nas cabeças dos cientistas? Podem ter surgido lá mesmo, por inspiração. Note-se, pois, que não há apenas a inspiração artística, mas científica também. Ela pode surgir a qualquer momento, principalmente nas horas em que o cientista tem sua mente aparentemente longe de suas preocupações profissionais. Um cientista famoso teve uma idéia luminosa quando estava dormindo; outro, quando subia no estribo de uma antiga carruagem. Soubemos de um que recebeu luminosa inspiração enquanto fazia a barba, e outra, igualmente luminosa, quando tomava banho... Cientistas famosos chegam a sugerir: se uma idéia fulgurante não lhe vem enquanto está trabalhando, deixe o trabalho e vá fazer outra coisa. Por exemplo, passear. Quando menos se espera, surgirá a inspiração.
Mas nem sempre a idéia surge na cabeça que está precisando dela. Cada cientista certamente já encontrou grandes idéias em conversas com colegas ou em livros ou trabalhos científicos de seus amigos.
A cabeça deve estar sempre preparada para receber a novidade. Venha de onde vier, ela chegará. Nessa hora, é preciso agarrá-la.
- NEWTON FREIRE-MAIA foi cientista da OMS (Suíça) e bolsista da Fundação Rockfeller nos EUA e é professor titular emérito sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba
O jornalista Luiz Geraldo Mazza encontra-se em férias.





