Ciência: beleza, gratuidade e segurança (2)
O edifício da ciência construída isto é, daquela que está feita, encontra-se resumido nos livros e os professores passam a seus alunos pode parecer um sistema harmônico e belo, forte e verdadeiro. Tem a força do equilíbrio e carrega a beleza da verdade. Mas isto é mera ilusão de quem pensa que está diante de um monumento realmente já pronto e que se expõe aos nossos olhos com a perfeição de suas linhas. A ciência que se faz dia a dia (ciência-processo) é muito mais bela e muito mais atraente do que o artifício da obra aparentemente acabada (ciência-disciplina).
Esta, se sondada em suas estruturas, pode parecer um monstrengo: é algo ainda sendo feito, com falhas e imprecisões simulando detalhes, com quase-verdades (com erros clamorosos) ainda longe das quase-verdades do futuro (com erros menos clamorosos). Seus andaimes se confundem com suas estruturas. Mais belo do que ver tudo de longe é subir nesses andaimes e ajudar a completar a obra, mesmo se sabendo que isso é impossível.
No início do século XX, um grande luminar da Ciência Joseph John Thomson criou o seu modelo de átomo que foi apelidado de pudim de ameixas. Na mesma época, outro grande físico Sir Ernest Rutherford afirmou que o átomo de hidrogênio deveria ter pelo menos mil elétrons. Hoje, acreditamos em outro modelo atômico (tipo sistema solar), de Niels Hendrik David Bohr (outro gênio!) e acreditamos que o átomo de hidrogênio só tem um elétron!
É preciso muito cuidado quando transmitimos esses fatos (?) aos estudantes. Eles podem acabar achando que a Ciência não merece confiança e que ela apenas vive substituindo velhos erros por erros novos. Que garantias ela nos dará quando encontrar a Verdade (com inicial maiúscula) absoluta e eterna, se os seus erros passados foram todos aceitos como verdades?
A verdade não é um conceito científico, mas filosófico. E mesmo se aceitando que a Ciência persegue a verdade, de que elementos dispomos para identificá-la se porventura for achada? Se nos referimos à Verdade-verdadeira, absoluta e eterna, não temos critério algum para identificá-la.
A verdade científica é a quase-verdade, isto é, a explicação que funciona bem e que, pragmaticamente, pode e deve ser usada como se fosse a Verdade inatingível. Ela funciona como se fosse essa verdade e, assim, salva as aparências. Essa é a verdade da Ciência, a verdade da explicação científica do Padre Lima-Vaz, a quase-verdade de N.C.A. da Costa.
A teoria da evolução biológica que, com Charles Robert Darwin, no século XIX, e com a nova síntese de 1920-1950, pelo trabalho principalmente de Tchetvericoff, Fisher, Haldane, Weight, Dobzhansky, Mayr, Stebbins e outros, atingiu um altíssimo grau de corroboração e de coerência, é uma quase-verdade geralmente aceita no mundo científico. É a melhor interpretação disponível de todas as comparações que se possam fazer entre todas as ciências biológicas; por isto, não há rival que ameace sua posição de relevo.
Pela sua grandeza, sua beleza, seu poder explicativo e sua integral corroboração, representa uma das mais soberbas realizações das Ciências Biológicas nos dois últimos séculos. Mas não é um fato; é uma teoria e, por definição, não pode ser provada; só pode ser corroborada. É talvez a nossa quase-verdade maior dentro da Biologia.
A quase-verdade científica garante nossas convicções, mas devemos estar sempre dispostos a mudá-las se quase-verdades melhores aparecerem para substituir as antigas. A Ciência não é dogmática. O dogma, por definição, é anticientífico.
A história da Ciência é a história das realizações da nossa sagacidade maior aliada à história das nossas maiores pretensões intelectuais. Tudo isto temperado por um ceticismo permanente e por um profundo senso de humildade. Na obra dos maiores gênios da humanidade encontramos sempre erros calamitosos que eles às vezes defenderam como se fossem verdades intocáveis. E que eram esses erros calamitosos? Eram simplesmente quase-verdades aceitáveis em sua época.
Darwim é, sem dúvida, um dos maiores gênios de todos os tempos. No entanto, aceitava a tese lamarckista da herança dos caracteres adquiridos e adotava, como explicação da herança biológica, um modelo criado por ele mesmo (a pangênese), que Mendel, seu contemporâneo e modesto padre de um mosteiro, já havia substituído por um outro modelo que vige até hoje, aperfeiçoado pela Genética Molecular que nasceu em 1953: a teoria do gene. Redescobertas em 1900 isto é, há 101 anos depois de 35 anos de completo olvido, as leis de Mendel (1865) vêm sendo básicas no estudo da Genética.
- NEWTON FREIRE-MAIA foi cientista da OMS (Suíça) e bolsista da Fundação Rockfeller nos EUA e é professor titular emérito sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba
O jornalista Luiz Geraldo Mazza encontra-se em férias.





