A ciência é um sistema dinâmico e exclusivista de saberes e crenças, gerado por uma metodologia vasta, múltipla e heterogênea, denominada ‘‘metodologia científica’’. Esse sistema inclui definições, descrições, classificações, interpretações, comparações, explicações, conjecturas e previsões, que decorrem desde a mais estrita, minuciosa e delimitada das análises até a mais ousada operação imaginativa. Esse sistema é dinâmico porque se caracteriza por um perene estado de ebulição intelectual, marcado por constantes mudanças decorrentes de aquisições, eliminações, correções e integrações. E é exclusivista, isto é, só aceita o que lhe parece de acordo com os seus cânones, repelindo toda e qualquer tentativa de aproximação com algo que se mostre fora deles.
Os seus praticantes formam uma confraria altamente democrática (está aberta a todos), mas selecionadora (nem todos são aceitos). Essa seleção baseia-se no mérito intelectual. Muitos que se encontram fora falam como se a ela pertencessem; nem sabem quais são os seus cânones mas, por isto mesmo, pensam ser membros da irmandade quando, na realidade, estão, por definição, fora dela.
Há uma ciência já feita, que os livros-texto descrevem e divulgam com perfeição e que é transmitida aos interessados pelas escolas de todos os graus e pela mídia nos seus múltiplos níveis. Ao lado dela e fornecendo-lhe, a cada dia, algo que a amplia, corrige e aprimora, há a sua fonte primária – a ‘‘ciência-pesquisa’’. A primeira acredita na verdade de Aristóteles; a segunda só aceita a quase-verdade de Da Costa. A ‘‘ciência-disciplina’’ é dogmática, ingênua e conservadora; a ‘‘ciência-processo’’ é criada, proposta, discutida, negada e pode vir a ser aceita.
O professor e o estudante nem podem imaginar a intensa ebulição que ocorre atrás de seus passos, sempre firmes e seguros. O cientista renega à tarde o que aceitou pela manhã, muda hoje o ponto de vista ardorosamente defendido ontem, nem pode imaginar o resultado de uma pesquisa iniciada há um mês e talvez ache que só terminará com sua morte a linha de pesquisa começada há três decênios... A sua imaginação é viva e borbulhante como a de um artista, mas o seu amor aos fatos força-o a esmigalhá-los até seus componentes menores, assim aparentemente destruindo a primitiva beleza do conjunto. Quando, porém, ele os recompõe e os interpreta com a nova teoria, ressurge a antiga beleza aparentemente morta. Ela agora, muito mais fulgurante, está melhor compreendida.
O cientista é um esteta, mesmo quando não tem consciência de sua admirável função artística. Ao pensar que a arte é mais importante que a ciência, assim ressaltando a mais alta significação da beleza da vida humana, Nietzsche certamente não sabia aquilatar o altíssimo grau de beleza que brota da investigação científica e das magníficas conjecturas que explodem no cérebro de gênios como Galileu, Newton, Darwin, Mendel e Einstein.
E mais: em informações aparentemente desordenadas e mesmo caóticas, o cientista pode descobrir uma ordem esplendorosa em que impera a beleza sem par que o Universo mostra escondendo. Foi preciso o gênio de Kepler para ver a beleza que estava à vista de todos, mas que ninguém viu, e que se revelou nas suas três leis astronômicas. Mendel também, do absoluto caos, retirou a ordem e a simplicidade da Genética.
Uma das características mais marcantes da atividade científica é a sua absoluta gratuidade. A descoberta pode gerar lucros, mas nunca será o cientista beneficiário da operação. Outros – os capitalistas, os industriais, os chefes de empresa, os acionistas de companhias etc. – é que, direta ou indiretamente, utilizam o novo conhecimento científico para a geração de riquezas.
Pasteur nada ganhou com os seus soros. Mendel nunca se beneficiou com as leis básicas da Genética. Fleming nenhum lucro tirou da descoberta da penicilina. Einstein enriqueceu o mundo e morreu sem riquezas: nenhum benefício tirou de suas teorias da relatividade. Muitos cientistas, fundadores de ciências e solucionadores de mistérios viveram e morreram pobres. Alguns pensadores há que foram presos ou morreram na fogueira porque suas idéias contrariavam as superstições então em voga.
Não se confundam os cientistas com os inventores. Aqueles, em geral, procuram o conhecimento pelo conhecimento, sem outras preocupações; estes estão à cata de aplicações que possam ser úteis e gerar lucros. Pasteur, Mendel, Fleming e Einstein foram cientistas de primeira linha; Edison, Marconi e os irmãos Lumiére foram grandes e inesquecíveis inventores.
- NEWTON FREIRE-MAIA foi cientista da OMS (Suíça) e bolsista da Fundação Rockfeller nos EUA e é professor titular emérito sênior da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
O jornalista Luiz Geraldo Mazza encontra-se em férias.

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