O Projeto Cidade Limpa anuncia o ideal da despoluição visual e a revelação do patrimônio histórico nas cidades. Recentes discussões na comunidade expõem dúvidas na eficácia de propostas generalistas dessa natureza. Ao contrário do que afirma, o projeto também pode anular e colocar em risco uma das qualidades urbanas essenciais: a sobreposição de camadas da história, que nos dá a tranquilidade de reconhecer os tempos vividos (Tanizaki, 1933). Portanto, mereceria ser aprimorado.
Lewis (1979), geógrafo americano, afirma que a paisagem é como uma autobiografia não consciente, que reflete valores, aspirações e até mesmo medos, de forma visível. Sob esse enfoque, não só a edificação original, mas também os acréscimos e marcas do tempo são importantes na definição da paisagem urbana. Uma foto de 1935, tirada no dia da inauguração das Casas Pernambucanas em Londrina, mostra letreiros ocupando toda a extensão da fachada. A Avenida Rio de Janeiro, a rua chique da cidade nos anos 40, trazia dezenas de pitorescas placas de diversos tamanhos fincadas na fachada das lojas, reforçando a sua atratividade e vitalidade. A cada possibilidade de novo material, a cidade ia moldando sua fisionomia, desenhando, recortando, sobrepondo letras, placas, toldos e perfis metálicos, até as atuais lonas impressas.
Preocupa no Projeto Cidade Limpa Londrina a retirada de placas históricas que marcavam lugares tradicionais. Podemos citar alguns exemplos: a placa do Bar Estoril na Galeria Centro Comercial que tinha mais de 50 anos, a placa da loja A General na Rua Sergipe com 40 anos, entre outros. Quem não se lembra da logomarca gigante na lateral do edifício Tókio? A pequena placa do Salão Dois Irmãos na Vila Casoni, com mais de 50 anos, continua fixada numa barra de ferro transversal ao passeio. É irregular segundo as regras da nova Lei. Deverá ser retirada em breve.
Outra questão refere-se à necessidade urgente de orientação para as reformas em andamento. Já é possível constatar a descaracterização de fachadas históricas, agora expostas, procurando ajustar a um novo padrão estético. Ocorre através da substituição de revestimentos, aplainamento de ornamentos e platibandas além da demolição de marquises. Transformações não previstas no detalhamento da Lei.
O Projeto Cidade Limpa parece ser mais adequado a intervenções pontuais em praças, quarteirões e edificações consideradas significativas. Em Londrina são reconhecíveis através do Levantamento Aerofotogramétrico de 1949 e pelos numerosos Álbuns de Lembranças. Quem caminhar pelas ruas do centro histórico: Avenida Rio de Janeiro, São Paulo e adjacências, constatará que a maioria das edificações que emergiram depois da aplicação do Projeto Cidade Limpa são barracões simples. Edificações extremamente funcionais, cuja fachada é uma parede com quatro portas de enrolar, construídas já prevendo a fixação de placas e letreiros. Na impossibilidade de uso de propaganda, a alternativa encontrada pelo comércio é o uso de cores cada vez mais chamativas na fachada. Agora, mercadorias coloridas são amontoadas na frente das lojas e o uniforme dos vendedores também mudou de cor. Balões de festa formam arcos decorativos na entrada das lojas.
Um silencioso processo de transformação de Londrina - a filha de Londres - numa multicolorida Caribe está em curso. Em substituição à profusão de letras, agora enfrentamos a poluição cromática. Na cada vez mais colorida Londrina, uma possibilidade seria pintar de branco os equipamentos públicos, ônibus e táxis. À medida que as cores como o vermelho vão perdendo o seu significado original, talvez essa seja uma alternativa viável de padronização, se necessária.

HUMBERTO YAMAKI é docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina

mockup