Cresceram no primeiro semestre do ano os números de homicídios, assaltos a ônibus e a residências em Londrina. Meninos pobres têm sido executados, gangues de traficantes disparam contra outras colocando cidadãos na linha de tiro, balas perdidas atingem gente inocente. A população se tranca enquanto espera o Estado agir.

Bombas que explodem dentro de casa; adolescentes executados; tiros perto de escola; balas perdidas que acertam crianças... Essa cidade, infelizmente, é Londrina.
''Quando me mudei para cá, há mais de 10 anos, meus filhos eram pequenos. Eu achava que a gente teria uma vida tranquila. Nos primeiros anos, realmente vivemos sossegados mas de uns tempos prá cá tudo mudou. Justamente agora que meus filhos cresceram e passam boa parte do tempo fora de casa, estudando, namorando e trabalhando, eu e meu marido vivemos com medo. Cada vez que eles saem de casa eu fico rezando para que eles não sejam mais uma vítima da violência que está nas ruas. Quando estamos todos em casa, daí eu rezo para a violência não chegar aqui. O que aconteceu com essa cidade?''. O desabafo é de uma moradora de um dos bairros da Zona Norte. A pergunta que ela faz é a mesma que incomoda milhares de londrinenses.
Os números não deixam dúvidas a violência explodiu em Londrina. No ano passado a polícia registrou 113 assassinatos 45 no primeiro semestre e 67 no segundo. Este ano já aconteceram 72 assassinatos. Uma projeção simples aponta que serão pelo menos 140 assassinatos até o fim do ano um aumento de 30% com relação ao ano passado. Alguns, bárbaros, como o rapaz que morreu esta semana executado com 12 tiros.
Os ônibus são outro alvo da violência. No ano de 2000 foram registrados 87 assaltos; em 2001 este número pulou para 347; este ano, até agora, já aconteceram 231 assaltos. A polícia sabe que a maioria dos assaltantes são menores, que usam o dinheiro para comprar drogas. Eles assaltam com revólveres, facas, armas de brinquedo e até pedaços de pau. Alguns fingem que estão armados. A impunidade é tão grande que passageiros, motoristas e cobradores não ousam reagir. Andar de ônibus em Londrina agora é perigoso.
''Trabalho há mais de 20 anos e posso dizer que antigamente não era assim. A gente começou a sofrer esses assaltos nos últimos dois anos. É horrível precisar do emprego e trabalhar com medo. Toda vez que pego no volante penso que estou sujeito a ser assaltado. O pior é que a gente não sabe se vão levar só o dinheiro ou se vamos ser baleados ou cortados''. O depoimento é de um motorista de ônibus de 52 anos. Ele foi assaltado duas vezes nos últimos meses. ''A pior foi quando o assaltante era um garoto que estava drogado. Ele gritava que queria dinheiro e ameaçava a gente com uma faca. No final, levou meu relógio, as moedinhas que havia no caixa e sumiu. A sensação de impotência é total. Só consegui ligar o ônibus e continuar porque pensei na minha família. É trabalhar com medo ou ficar desempregado''. O medo dos motoristas é ainda maior do que o dos cidadãos comuns: ''A gente tem dezenas de vidas sob a nossa responsabilidade. Precisamos de tranquilidade para trabalhar porque temos 60, 70 pessoas nas nossas mãos'' pondera.
Todos os crimes tiveram aumento e alguns com índices assustadores. Os arrombamentos em residência, por exemplo, aumentaram 300% de acordo com um balanço feito pela polícia comparando os números do ano passado com os deste ano. De janeiro a maio de 2002 foram 140 arrombamentos, contra 66 em 2001. ''É grade, cadeado, alarme e cachorro. Tudo que eu podia fazer eu fiz. Tem mais, depois das 6 horas da tarde, a gente tranca janelas, portas e portões. Parece que a gente vive enjaulado, preso numa gaiola. Os marginais ficam soltos, nas ruas, e nós aqui dentro, fechados e com medo'', reclama uma dona de casa que mora no centro da cidade. ''O pior é que as pessoas parecem estar se acostumando com isso, achando essa loucura normal'' diz ela.
Lutar contra a violência, ultimamente, é como dar '' murro em ponta de faca'', segundo o presidente do Conselho Comunitário de Segurança, Ivo de Bassi. Ele é o primeiro a reconhecer que o problema é difícil de resolver. ''Tenho cobrado a polícia Civil e Militar mas está muito complicado. Também temos feito reuniões com presidentes de associações de moradores, pedindo que eles denunciem mas as pessoas têm muito medo''. Bassi revela que 90% dos crimes estão relacionados com tráfico de drogas. ''A polícia faz abordagens e desarmamento mas quem tem arma guarda em casa, não sai por aí com ela na cinta'' diz ele. O presidente do Conselho só vê uma solução efetiva a curto prazo: polícia na rua. ''Infelizmente não temos dinheiro para contratar policiais nem comprar armas. Se eu pudesse, era isso que eu faria''.
Se o desejo do presidente do Conselho Comunitário de Segurança pudesse ser atendido, ele deveria contratar pelo menos mais 1.200 policiais. A conta não é complicada: conforme a Folha de Londrina noticiou recentemente, a cidade tem atualmente pouco mais de 900 policiais militares. Deste total, alguns trabalham em serviços administrativos, outros estão de férias, licença médica, etc. Sobram realmente cerca de 700 policiais que são divididos em quatro turnos para atender uma população que inclui os moradores de Cambé, Ibiporã e Tamarana perto de 700 mil habitantes. Na realidade, são aproximadamente 150 policiais nas ruas para dar conta de toda essa violência.
Enquanto os crimes aumentam dia a dia, o efetivo da Polícia Militar permanece o mesmo há mais de 20 anos. A Organização das Nações Unidas (ONU recomenda que cada cidade deve ter pelo menos um policial para cada mil habitantes. Londrina tem hoje um policial para cada 3.284 habitantes. A lógica mostra que é preciso colocar mais 300 homens nas ruas, imediatamente. Para isso seriam necessários outros 1.200 policiais, já que eles trabalham divididos sempre em quatro turnos.
Se a solução para a violência está longe de ser alcançada, as causas saltam aos olhos faltam policiais, carros, equipamentos. E isso não acontece só na Polícia Militar. Na Civil são 140 funcionários, entre investigadores, escrivães e delegados. A maioria dos delegados trabalha com apenas um ou dois investigadores. Um exemplo é o 6º DP, que deve atender, além da Zona Sul da cidade, os distritos de Irerê, Lerroville, Paiquerê, Guaravera, Maravilha e o patrimônio do Espírito Santo. Uma área com mais de 100 mil habitantes, segundo o delegado Algacir Ramos, que tem apenas dois investigadores para dar conta do trabalho: ''Não dá para atender todo mundo porque é muita gente, as distâncias são grandes e não temos gente suficiente'' explica.
Quando se trata de violência, nem o socorro escapa da precariedade; os bombeiros têm só 30 soldados divididos entre equipes de combate a incêndio e Siate. Para completar o quadro, cadeias superlotadas e o caos instalado no Instituto Médico-Legal, onde nenhuma das oito geladeiras funciona e o laboratório está praticamente desativado.
O motorista de ônibus se prepara para mais uma viagem. A última observação dele, antes de encerrar a entrevista, é um pedido de socorro: '' A gente é agredido de todos os lados, como trabalhador, como cidadão, como pai de família... não temos paz no serviço, não temos sossego em casa. Será que não tem ninguém que possa nos ajudar?''.
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DA EDIÇÃO DE AMANHÃ




Rovilson Manieri
Os arrombamentos em residência aumentaram 300% de acordo com um balanço feito pela polícia comparando os números do ano passado com os deste ano



Karina Yamada
Este ano já aconteceram 72 assassinatos, contra 113 em 12 meses de 2001

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