Cidadão sob suspeita - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de julho de 1998
Arlete Salvador 
Talvez não seja rotina em Brasília, mas experimente pagar uma conta com cheque em São Paulo. O vendedor vai pegar aquele papelzinho, supostamente equivalente a dinheiro, torcer o nariz e botar um carimbão atrás. No verso, o dono do dinheiro vai ter de escrever o número da carteira de identidade e do telefone e o endereço completo. Pouco importa se o cheque é especial.
Alguns vendedores mais atrevidos ainda vão perguntar, muito educadamente, se o sem-vergonha do comprador não tem outro telefone. Sabe como é, para checar se a pessoa que assinou o cheque é mesmo a pessoa do cheque. Aí, vai lá atrás do balcão e, escondido, liga para o terceiro número e pergunta se fulano de tal é mesmo fulano de tal. Só então o vendedor se convencerá de que o comprador é um sujeito legal, honesto até, gente boa.
Se o cliente tiver a ousadia de reclamar do tratamento, vai ouvir do vendedor, já irritado, que o número de cheques sem fundos aumentou nos últimos meses e todo cuidado é pouco na hora de receber pagamento desse tipo. Ou seja, portadores de talão de cheques são, por excelência, estelionatários, como são chamadas perante a lei as pessoas que passam cheques sem fundos. Somos tratados nos caixas dos bancos e nas lojas e supermercados como caloteiros em potencial, inadimplentes do futuro, seres desprezíveis que só dão trabalho e prejuízo aos comerciantes.
Mas tudo isso ainda não basta para o cidadão honesto provar que é honesto. Os comerciantes estão em campanha aberta contra os cheques, querem maior rigor dos bancos na hora de conceder os talões. A gritaria é tanta que o Banco Central já pensa em liberar as instituições da obrigatoriedade de fornecer pelo menos um talão gratuito ao cliente. Se a reclamação vingar, quem quiser abrir uma simples conta bancária terá de passar por uma sabatina tão grande quanto aquela a que são submetidos os candidatos a empréstimo pessoal. O cidadão honesto vai ter de provar mais ainda que é honesto.
Sou daquelas que esperneiam. Recuso-me a dar telefones de terceiros para que vendedores chequem as informações do meu cheque, dou um endereço em Gottam City (nunca encontrei um vendedor que a identificasse como a cidade do Batman) e um telefone em Miami. Não admito ser tratada como bandido só porque possuo talão de cheques.
Os consumidores honestos não são responsáveis pela inadimplência dos outros, mas são eles que sofrem o ônus da humilhação na hora de pagar uma compra. Estelionatários em geral não se intimidam na hora de falsificar documentos ou assinatura. Aumentar a burocracia de forma generalizada não elimina os criminosos, mas faz dos consumidores em dia com suas contas cidadãos sob suspeita.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília


