As notícias dão conta que foi proposta na Câmara de Vereadores a indicação do apresentador Galvão Bueno para recebimento do título de Cidadão Honorário de Londrina. A escolha trouxe à tona o que teria o ilustre comentarista esportivo da Rede Globo feito em benefício da cidade para a concessão de tão digna homenagem. A resposta pode ser: o mesmo que Juscelino Kubitscheck, João Goulart, Antonio Delfim Netto, Jânio Quadros, Pelé e até mesmo o falido dono da Transbrasil, Omar Fontana... nada! Mas ainda assim, todos detentores de nossa mais alta honraria.
Uma das justificativas que ouvi dos defensores da idéia é de que – ‘‘ele ainda fará algo!’’ Estamos cometendo similar erro de algumas empresas, que avaliam seus empregados pelo potencial dos mesmos e não por suas realizações concretas, normalmente premiando por mérito as pessoas erradas. Outros dizem que ele ajudou a projetar a cidade e torná-la conhecida através da televisão. Tudo bem. Mas então o ex-prefeito cassado e ex-presidiário também é merecedor de igual título. Afinal, cansei de vê-lo nos últimos meses em cadeia nacional no noticiário de maior audiência do Brasil, sempre ligado ao nome de nossa cidade.
É bom que fique claro que nada tenho contra o senhor Bueno e que não o conheço pessoalmente. No entanto, nosso município tem personalidades de sobra para serem homenageadas. Gente que aqui chegou para ficar e que notadamente ajudou a construir nossa cidade e torná-la a terceira maior do Sul do País num tempo em que só não tínhamos apagões porque a luz elétrica ainda nem tinha chegado. Pessoas que perderam os sapatos atolados em nosso barro vermelho, gente que abriu as estradas à machadada para que os atuais homenageados pudessem aqui chegar.
A Lei nº 630 de 12 de junho de 1961 criou o título de cidadão honorário de Londrina, tendo alteração em 1981 para que a escolha se desse através de voto secreto e, finalmente, em 1987 passou a ter a atual redação, quando ficaram determinados os critérios de escolha onde a honraria será concedida a personalidades nacionais ou estrangeiras, tanto em vida como ‘‘post-mortem’’, que tenham prestado serviços relevantes, de conhecimento público e notório, em qualquer ramo de atividade, beneficiando o município de Londrina.
Temos que ter em mente ao aprovarmos essas homenagens que nossos filhos e netos um dia nos cobrarão sobre os feitos dessas pessoas, e que ao contarmos a verdade ficará sempre a indagação sem resposta de que por que não foi o bisavô igualmente lembrado por seus atos de bravura diante de uma cidade que não passava de floresta quando aqui chegou, plantando a semente do desenvolvimento e criando do nada uma magnífica Londrina da qual desfrutamos atualmente.
Assim como já foram justamente homenageados ilustres ‘‘londrinenses’’, construtores do progresso, tal como Celso Garcia Cid, que trouxe os ônibus e o gado indiano dentre outras coisas; Olinda Marçal Carneiro, que dedicou sua vida ao Albergue Noturno, evitando que seres humanos morressem de frio e fome nos rigorosos invernos; José Navolar, que foi o primeiro presidente da Sercomtel; meu amigo Nely Lopes Casali, que formou tantas levas de bons advogados como docente, dentre outros, Galvão Bueno certamente terá oportunidades mil de mostrar seu valor para a região e quem sabe até disputar o título em pé de igualdade com os citados. Mas, por hora, entendo que ele ainda pouco fez para merecer a homenagem embora torça sinceramente por seu sucesso em nossa cidade, da mesma forma como torcia pelo Airton Senna nas manhãs de domingo.
Fica aqui a sugestão aos vereadores para não passarem pelo mesmo vexame de seus colegas deputados estaduais, que através de recente pesquisa divulgada descobrimos ocupar muito pouco tempo de seus mandatos com as questões relevantes e de sua competência e gastarem o já pouco tempo trabalhado e muitíssimo bem remunerado com o dinheiro dos tributos pagos pela população em discussões irrelevantes ou, como o macaco que, sentado sobre o próprio rabo especula sobre o alheio. Para tanto, antes de pensar em conceder honrarias, que se honre o mandato recebido discutindo e votando, abertamente, os urgentes projetos que se encontram na Câmara.
- RICARDO PROCHET é professor universitário em Londrina
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