Cidadania, saúde e modelo cooperativista
Um dos pressupostos básicos para que todos os brasileiros possam um dia desfrutar de uma cidadania plena é a universalização do acesso à saúde - objetivo que, apesar de tão antigo, ainda continuamos a perseguir. Para alcançá-lo, é fundamental um modelo de atuação capaz de fazer face à variedade de condições que caracterizam o País. Um modelo que, por um lado, possibilite aos profissionais da área, particularmente os médicos, o exercício de suas atividades com ética e dedicação integral na relação com os pacientes, e que, por outro, supra as diferentes necessidades de qualidade de vida da população.
Uma tarefa árdua, se considerarmos alguns indicadores. Apenas 8% dos domicílios da região Norte e 13,1% da região Nordeste, por exemplo, possuem esgotamento sanitário adequado, segundo o IBGE. Nessas regiões, menos da metade dos domicílios é dotada de abastecimento adequado de água, e muitos habitantes não possuem instrução suficiente para melhor proteger a saúde. Diante disso, males quase erradicados como tuberculose, dengue, malária, hanseníase, além de índices elevados de mortalidade materna e neonatal, todos umbilicalmente ligados à miserabilidade, voltaram a afligir a população.
Em paralelo, nos grandes aglomerados urbanos do Centro-Sul, multiplicam-se os problemas de saúde decorrentes de hábitos da vida moderna, como alcoolismo, doenças cardíacas, câncer, acidentes de trânsito e violência, e a infra-estrutura para combatê-los se ressente da falta de investimentos.
Basta ponderar os números da escassez de leitos hospitalares disponíveis no município de São Paulo, por exemplo. Segundo pesquisa realizada no ano passado, cerca de 4 milhões de pessoas - 40% dos paulistanos - vivem em regiões onde não há nenhum hospital. É como se não houvesse hospitais em Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e Campinas juntas.
É possível assim concluir, com pouca margem de erro, que a debilidade na saúde atinge todas as regiões e tem tripla origem: as carências primárias decorrentes da péssima distribuição de renda, a deterioração da qualidade de vida e o insuficiente investimento nos sistemas de atendimento. Três áreas em que o Estado deveria intervir, mas não o tem feito nos últimos anos, por causas que todos conhecemos e que podem ser resumidas na expressão ''crise fiscal''. Um problema, aliás, que extrapola as fronteiras. Hoje, o desmonte do chamado Estado do Bem-Estar Social é um fenômeno planetário.
O aprofundamento dessa crise no setor público e a incapacidade do Estado de atender à demanda levaram ao surgimento, no Brasil, de empresas privadas que respondem, hoje, pelo atendimento médico-hospitalar a mais de 40 milhões de pessoas. Contudo, muitas delas, estabelecidas no mercado para suprir a lacuna do SUS, estavam de olho apenas na acumulação de capital, com pouca ou nenhuma preocupação efetiva com a qualidade dos serviços prestados aos respectivos usuários e, não raro, oferecendo remuneração vil aos médicos credenciados.
Foi precisamente como reação a esse estado de coisas que nasceu e consolidou-se a Unimed, um complexo que atualmente congrega 364 cooperativas médicas no País. Surgiu quando um grupo de médicos, insatisfeitos com a crescente mercantilização do setor de saúde, buscava um modelo que resgatasse a ética e o papel social da sua profissão, garantindo tanto a prática liberal da profissão como a qualidade do atendimento. A resposta a estes anseios foi encontrada em um modelo inédito em todo o mundo: o cooperativismo médico, administrado nos moldes de uma empresa, porém sem fins lucrativos.
Hoje, mais de três décadas depois, a liderança da Unimed no mercado e sua grande aceitação são comprovadas por pesquisas e pelos prêmios conquistados. Pode-se dizer que esse reconhecimento é fruto de uma conjunção de fatores que fizeram dela uma instituição exclusiva: uma ''empresa'' de médicos, dirigida por médicos e que, portanto, possui vocação natural para lidar com saúde. Como donos da cooperativa e beneficiários diretos de seu sucesso, os médicos sentem-se incentivados a pautar sua relação com pacientes e usuários do sistema pela ética, seriedade e qualidade.
Como se vê, ao menos no campo do atendimento médico-hospitalar, o Brasil já pode contar com uma alternativa promissora na busca da cidadania plena. Restam a solucionar os campos da qualidade de vida e das carências oriundas da pobreza. E embora ambos não façam parte de seu escopo direto de atuação, a Unimed pretende contribuir também nesses dois âmbitos, lançando um projeto nacional de responsabilidade social, com ações coordenadas e gratuitas nas áreas educacional, sanitária e ambiental - entre outras - em benefício das populações mais necessitadas.
Será este o tema central da 31ª Convenção Nacional da Unimed, que ocorrerá em Goiânia de hoje ao dia 13, com a presença de 1,2 mil dirigentes de todo o País e na qual serão também debatidos os desafios do mercado cada vez mais competitivo dos planos de saúde. Evento, sobretudo, sinalizador da maturidade de uma organização que, ano após ano, aumenta seu papel na garantia à saúde do Brasil e na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
- CELSO BARROS é presidente da Unimed do Brasil





