Cidadania - Cultura e educação, parceria obrigatória
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sábado, 10 de maio de 2014
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Aos 57 anos o jornalista Gilberto Dimenstein continua inquieto e buscando colocar em prática ideias criativas no âmbito da comunicação, educação e inovação digital. Ele passou por Londrina na semana passada a convite da Unopar para falar sobre uma delas, a Catraca Livre, plataforma digital focada na democratização do acesso à cultura. A iniciativa, que começou em 2008 na cidade de São Paulo, e desde o ano passado está presente em 12 capitais com o apoio do Grupo Kroton Educacional, já soma 7 milhões de usuários.
A ideia foi considerada em 2013 como uma das 100 ideias mais inovadoras do mundo, segundo especialistas internacionais da área tecnológica. Subproduto dos projetos Bairro-Escola e do Escola Aprendiz conceito no qual o território onde a escola está inserida deve servir de meio constante de aprendizagem comunitária, o Catraca Livre ainda não vai ser implantado em Londrina, mas já tem uma versão em Curitiba.
O interesse mais profundo pelo tema cidadania vem desde a série de reportagens que fez sobre crianças e adolescentes pela Folha de São Paulo na década de 1990. Foi um dos responsáveis pela criação da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e levantou bandeiras como o Bolsa Família e o ensino em período integral.
Atento às mudanças rápidas do mundo atual, não é adepto do saudosismo: para ele, tempo bom é aquele em que estamos inseridos e no qual podemos atuar. Enxerga com otimismo a revolução digital.
O Catraca Livre é um site que divulga eventos culturais gratuitos em 12 capitais. Como surgiu a ideia?
Nasceu da experiência do Bairro-Escola/Escola Aprendiz, que começou em São Paulo em 1997. O projeto trazia a ideia de transformar todo o entorno do bairro e da escola em um lugar que as pessoas possam usar de forma mais produtiva para a aprendizagem. Forma-se uma rede de integração com teatros, cinemas, praças, parques, unidades de saúde, universidades, sempre levando em conta de que a boa educação tem três esferas: família, comunidade e escola. Percebemos que havia uma série de riquezas e possibilidades nas áreas de educação e cultura, na comunidade, na cidade e no bairro que as pessoas não sabiam e tivemos uma ideia muito simples de tentar fazer uma listagem de tudo o que fosse possível usar na cidade de graça.
E como as cidades podem aderir ao Catraca Livre?
O Catraca Livre trabalha com uma redação e uma rede de colaboradores. E é preciso ver se vale a pena implantá-lo em determinada cidade. A ideia é mapear o que uma cidade pode oferecer. Neste momento, estamos expandindo o projeto, que se mantém com patrocínios, para mais 11 cidades.
E as políticas públicas para a cultura? Existe um modelo ideal?
Em todo lugar do mundo as artes mais sofisticadas têm algum incentivo público. O Vale-Cultura (projeto cultural que dá acesso a espetáculos a partir de um cartão pré-pago) me incomoda muito mais do que a Lei Rouanet. A verba é muito alta e eu ficaria mais feliz se ela pudesse ser colocada nas escolas para melhorar a educação e aumentar o repertório cultural das crianças. Acho que o retorno seria maior do que simplesmente deixar esse dinheiro na mão das pessoas. Sobre modelos de incentivo, não há modelo ideal. Há exemplos americanos em que as pessoas doam muito dinheiro espontaneamente, mesmo com os incentivos do governo, e isso ajuda a promover as ações culturais.
A cultura é, de fato, relegada pelas administrações públicas?
No Brasil, existe uma questão mais emergencial nas áreas da saúde, da infraestrutura. O problema é que a cultura é uma das dimensões da educação, é o grande fator que faz desenvolver o autoconhecimento e a imaginação de um país necessita de pessoas inovadoras e imaginativas para prosperar. Educação e cultura é uma ideia só, não dá para dissociar uma coisa da outra. A cultura é, portanto, um elemento da cidadania.
Estamos passando por uma crise cultural?
Não sei dizer... Realmente não temos grandes movimentos culturais mas, por outro lado, vivemos uma grande agitação na produção do conhecimento. A revolução digital está sendo a revolução cultural. Compartilhamento da imagem, da informação, do conhecimento. Cada vez mais pessoas têm acesso às informações. É um momento muito rico, do ponto de vista digital.
Existe diferença entre entretenimento e cultura?
Hoje vivemos uma sociedade do entretenimento e isso é grave em todos os sentidos, inclusive para a educação. As pessoas querem estar se divertindo o tempo todo, em tempo real, enquanto o processo educativo exige reflexão, transpiração. É a mesma coisa no mundo da cultura. A cultura mais sofisticada não é feita para entreter; é para conhecer as dimensões do mundo. As coisas ficaram muito céleres e as ações complexas exigem reflexões complexas, não tem outro jeito. Ao mesmo tempo, hoje temos pessoas complexas que sabem lidar com essa velocidade do conhecimento, com esse momento.
E essa história da sua utopia ser "uma cidade sem catracas"?
A minha utopia é algo mais simples que isso. É a capacidade que uma sociedade tem de fazer com que as pessoas desenvolvam seu potencial, sejam criativas e que seja algo para todo mundo. Isso exige educação, saúde, comunidade, cultura e não acontece no vácuo; acontece em um espaço localizado geograficamente. Você é um pouco do que a sua família é, um pouco do que a sua escola foi e muito do que é a cidade onde você está, do seu entorno, as oportunidades estão ligadas a isso. É preciso estar em um lugar que amplie as possibilidades. Imagino a cidade como uma grande incubadora de talentos.
A qualidade da educação brasileira melhorou?
Nos últimos dez anos acho que avançamos, de modo geral, mas os problemas são muitos. Hoje há metas, avaliações, as famílias estão mais preocupadas com a educação. Aqui é difícil porque existe uma questão central onde o professor é mal remunerado e mal qualificado. Se fosse a seleção brasileira, estava na décima divisão. Esse é o desafio do século 21: como fazer com que o país melhore o nível de educação. A educação digital é um dos caminhos, mas é preciso ter os três eixos funcionado - família, escola e comunidade - juntamente com as políticas públicas. Não há muito mistério e não é só a questão da instrumentalização. Educação é saber fazer a interrelação das ideias, é isso que faz gerar conhecimento.


