Receber a notícia da morte de um familiar ou de um amigo próximo não é nada fácil. Um turbilhão de sentimentos vem à tona. Tristeza, revolta e inconformismo são comuns. O mesmo acontece quando o médico comunica o diagnóstico de uma doença grave ou revela que o paciente está em estado terminal. Cada pessoa reage de forma diferente, e não existe apenas uma maneira certa de lidar com essas situações.
A constatação é do psiquiatra John Rolland, professor da Escola de Medicina da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, e presidente da Academia Americana de Terapia de Família (AFTA). ''Alguns indivíduos sentem medo diante da possibilidade de perdas. Outros conseguem encarar a morte com naturalidade. Tudo depende das crenças e dos significados que temos em nossas vidas'', afirma.
Em entrevista à FOLHA, John Rolland, que ministra workshop em Londrina amanhã e sábado a convite do Instituto da Família da Faculdade Teológica Sul Americana, afirma que os pais devem conversar abertamente com os filhos para que aprendam a lidar com a morte. E ressalta que os sentimentos de perda são revivenciados em vários momentos da vida.
Qual a melhor forma de preparar crianças para lidar com grandes perdas, como a morte de um ente querido?
Crucialmente, devemos usar a comunicação aberta, a que encoraja e não constrange. É natural que as crianças sigam o modelo dos adultos. Se os pais evitam tópicos dolorosos entre si ou com os filhos e sempre falam que ''tudo está bem'', os filhos aprenderão que não é seguro compartilhar suas experiências. Dessa forma, os filhos podem sentir que devem proteger seus pais das dificuldade e não compartilhar seus sentimentos com eles.
Por que algumas pessoas conseguem encarar as perdas e sofrimentos de uma forma mais equilibrada e natural do que outras?
Esta é uma questão muito complexa. Certamente devemos considerar as crenças e os significados que aprendemos com as perdas em nossas vidas. Alguns indivíduos sentem medo diante da possibilidade de perdas. Outros conseguem lidar com naturalidade. Com isso, os membros da família - inclusive as crianças - vão se tornando mais fortes e resilientes.
Por que muitos ainda não encaram a morte como algo normal, que faz parte da vida?
Nos Estados Unidos as pessoas são frequentemente encorajadas a usar um escudo para proteger-se das perdas por meio de conselhos como: ''siga adiante'', ''bola pra frente'', ''supere isso''. Às vezes, os funcionários da saúde promovem um certo tipo de aversão à morte ao superenfatizar que o sucesso é a cura sobre a doença.
®MDBO¯ Os funcionários da saúde podem muitas vezes fazer todo o possível para curar o paciente, mais do que algumas vezes aderir a um método de cuidado paliativo que enfatize a qualidade de vida para um paciente com uma doença terminal. Há uma enorme variação cultural sobre o cuidado da família e há, inclusive, uma crescente ênfase sobre o cuidado alternativo nos Estados Unidos, por exemplo, os Hospices (local onde há cuidado paliativo ao paciente terminal, priorizando a qualidade de vida).
®MDNM¯ Quais reações são consideradas ''normais'' diante da morte de alguém próximo? É necessário passar por determinadas fases para depois aceitar o ocorrido?
Existem teorias sobre os estágios da perda. Tais teorias são limitadas ao afirmar os estágios de dor que as pessoas têm que passar. Se seguirmos essa lógica, então a perda está resolvida. E não é bem assim. As perdas são reexperienciadas em vários momentos da vida.
Por exemplo, o filho que perde o pai na adolescência, quando for adulto, no tempo da formatura, na escola, no casamento ou quando for pai pela primeira vez, poderá novamente vivenciar os sentimentos de perda. É natural que alguém sempre imagine compartilhar esses momentos com o pai que já se foi. E, na vida real, irá experimentar a tristeza e o luto pelo fato do pai não estar ali ao seu lado. Esse sentimento é muito normal.
Quando é preciso intervir com tratamentos psicológicos?
Se alguém tem aumento da depressão, ansiedade, dificuldades de apetite, insônia, dificuldades com permanência no emprego, a oferta de tratamento é útil.
O que fazer diante de um doente terminal? Como confortar o paciente e ao mesmo tempo manter-se equilibrado e sereno?
É vital manter o membro da família em contextos de vida familiar tanto quanto possível. É claro que em ambientes apropriados e de acordo com o grau de deficiência. A comunicação entre cuidadores sobre as responsabilidades compartilhadas e a necessidade de descanso são cruciais ao lidar com várias doenças de progresso lento, tais como Alzheimer. (Leia mais sobre o assunto no caderno Cidades)
Serviço
O workshop ''Um modelo de Atendimento a Famílias com Doenças Crônicas, Terminais e Perdas'' será realizado amanhã e sábado no Hotel Blue Tree Premium. Inscrições no local. O valor é R$ 425, com descontos especiais para alunos de graduação e de pós e associados de instituições apoiadoras do evento. Informações pelo (43) 3327-6676.

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