Se a chuva é boa para a agricultura, embora danosa quando demais, é um terror para os que habitam favelas, encostas, margens de rios e outros locais de baixa segurança. Como está chovendo em quase todo o Brasil, sem cessar nem um dia neste ano novo, os dramas se avolumam e, mais um vez, mostram a miserável condição de habitação de milhões de brasileiros. Se o problema é menos grave no campo - quanto à segurança da casa - é gravíssimo nas cidades. Isto demonstra a irresponsabilidade dos governos num país tão rico e onde é escasso o senso de ordenamento. E assim é negado a tantos o direito elementar de morar decentemente.
Pela ausência de um substancial programa he habitação popular, o déficit no setor gira em torno de 8 milhões de moradias, isto significando 30 milhões de pessoas que moram mal. Cada chuva e tempestade de vento descobrem não apenas o teto dos precários abrigos mas põe a descoberto, repetidamente, também este grave problema social. O presidente Lula - que teve vida pobre na juventude mas depois converteu-se em sindicalista e a partir daí nunca mais passou necessidades - pouco fez pelo setor habitacional em seu primeiro mandato, embora esta tenha sido uma bandeira de suas campanhas eleitorais e do discurso ao operariado. Vem aí um novo pacote - ainda não aberto mas já anunciado com o nome de Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Como já se conhecem os números - estimativa de R$ 80 bilhões nos próximos quatro anos, fora o investimento das estatais - espera-se que o item habitação esteja contemplado.
Moradia, alimentação e saúde formam o tripé das grandes necessidades do homem, e quando a família tem um lugar seguro e limpo onde morar ocorre a tendência natural de as pessoas se sentirem mais dignas, e então elas próprias passam a ter mais auto-estima e reerguem-se mais facilmente por si mesmas. Quem corre pelos núcleos miseráveis ouve com frequência os moradores afirmarem que casa é tudo. E muito especialmente quando alcançam a oportunidade de habitar uma casa nova em conjunto popular ou a constroem em sistema de mutirão.
Só em Londrina existem 65 bolsões de pobreza - favelas tradicionais e novos assentamentos que vieram se formando - conforme este Jornal mostrou ontem, com base em dados da companhia municipal que trata de habitação popular. E nestes dias de chuva contínua a realidade da desumana condição de habitação fica mais evidente - na cidade e no Brasil inteiro. Quando faz sol, são as mazelas pertinentes ao calor doentio e os mosquitos; quando é tempo de inverno, é o flagelo do frio; e quando chove é o drama do desabrigo e do aguaceiro que molha inclusive a cama.

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