E eis que de repente meu universo mitológico voltou a ruir: o chupa-cabras, animal misterioso e assassino implacável, estraçalhador de ovelhas e outros pequenos animais indefesos, misto de lobisomem e bicho-papão, produto híbrido de morcego com lobo, avassalador, assustador, reencarnação do demo ou ser extraterrestre implacável, voraz e sedento - bem, o temido chupa-cabras não passa de um vil e ordinário ‘‘cão doméstico que vive solto’’.
Os peritos do Zoológico de Curitiba e do Instituto Ambiental do Paraná não tinham o direito de agir assim comigo. Nem comigo nem com ninguém. Muito menos com o chupa-cabras. Pois deram o golpe de misericórdia no chupa-cabras antes mesmo que ele se tornasse um mito, condição que adquiriu em muitos países da América Central, no México e nos insuspeitos Estados Unidos, os todo-poderosos Estados Unidos da América. Pois lá o chupa-cabras continua fazendo suas vítimas, continua povoando o imaginário de adultos e crianças, continua mantendo em sigilo sua identidade, sua origem, seu destino, seus meios de ação - apesar de todo o esforço e de todos os meios, sofisticadíssimos, aliás, empregados pela comunidade científica, que se declara perplexa diante do rastro de medo e de vítimas deixado por ele.
Pois bem. Longe de mim criticar o trabalho dos peritos paranaenses, homens de bem, homens dedicados integralmente à Ciência. E mesmo que quisesse criticá-los, não teria esse direito, pois eles cumpriram paciente e metodicamente sua missão e ao final concluíram: o chupa-cabras não existe. O autor da mortandade de ovelhas, de gansos e marrecos da região da Campina Grande do Sul - onde se concentraram no Paraná os ataques provocados por esse animal misterioso - é um cão. Ou vários cães. Ou uma matilha. Ou muitas, muitas matilhas. Um exército de cães.
Perdoem-me, no entanto, senhores peritos, mas, na profundeza de minha ignorância, tomo a liberdade de fazer algumas observações ao vosso laudo.
Ei-las:
- A conclusão fatal e fatídica de que os ataques foram provocados única e exclusivamente por ‘‘cães domésticos que vivem soltos’’ baseou-se pura e simplesmente na análise de chumaços de pêlos encontrados junto às vítimas.
- Não há provas testemunhais.
- Não há rastros do bicho.
- Foram vãs todas as tentativas de capturar o animal - e muitas armadilhas foram distribuídas na região de Campina Grande.
- Os ataques se restringiram no Paraná a esta região mencionada. Por que não há ‘‘cães domésticos que vivem soltos’’ atacando ovelhas em outras regiões do Estado?
- Nunca soube que cachorro chupasse sangue, tal qual aconteceu nos ataques em Campina Grande, segundo o depoimento de chacareiros que tiveram seu rebanho atacado.
- E os cortes com ‘‘precisão cirúrgica’’ das orelhas das vítimas, que tanto encabularam outros especialistas que examinaram e examinaram o assunto e não chegaram a conclusão nenhuma?
- E as mandíbulas destroçadas das ovelhas, como explicá-las? Os ‘‘cães domésticos que vivem soltos’’ teriam sido adestrados por Mike Tyson?
- E os montes de orelhas intactas e ‘‘envolvidas em um muco gelatinoso’’ encontrados ao lado das vítimas, como entendê-los? Como explicá-los?
- E, ainda, senhores especialistas, como chegar à conclusão tão segura baseando-se apenas em pêlos, sejam fiozinhos sejam chumaços, encontrados no corpo das vítimas ou próximo a elas? Vejam bem: se junto ao corpo de um homem assassinado for encontrado pêlo de chachorro, poder-se-ia concluir, pura e simplesmente, que o assassino foi o cachorro?
Diante dessas considerações, permitam-me, senhores especialistas, mas teimo em discordar de que os ataques tenham sido provocados por cães. Por cães ou por qualquer outro bicho já catalogado pela Ciência. Essas ovelhas, as pobres ovelhinhas de Campina Grande, da Costa Rica, do México, dos Estados Unidos, de tantos outros países, foram devoradas por um vampiro com corpo de leão, por um lobisomem com apetite de gaúcho, pelo Sérgio Motta, pelo Roberto Requião, por um anjo decaído, por um extraterrestre extraviado sensível à luz do sol e carente de sangue e carne de ovino, ou até por um chupa-cabras. Principalmente por um chupa-cabras. Por um cachorro, jamais!

mockup