Nunca morre quem sempre lutou por um mundo melhor. Fraterno, generoso e humano, o exemplo de Sérgio Motta ficará. Fez parte de uma geração sofrida, mas privilegiada pela esperança de construir um novo Brasil. Fui seu amigo por mais de 30 anos. Ainda estudava engenharia na Mauá, em São Paulo, em 1964, quando assume a condição de dirigente da AP (Ação Popular). Transforma-se numa usina de solidariedade aos jovens militantes cristãos que se homiziavam das perseguições autoritárias nos seus Estados, na paulicéia. Fui um deles.
Anos depois, 1977, presidindo a Companhia de Desenvolvimento de Londrina, na velha sede localizada na Rio de Janeiro esquina com avenida JK, recebo inusitada visita: era Serjão. A Codel coordenava o projeto de transposição da linha férrea do centro da cidade que servia para dividi-la em duas Londrinas. A de cima e a de baixo da linha férrea. Hoje é a avenida Leste-Oeste. A empresa que ganhara a concorrência para a execução da obra de engenharia contratara a Hidrobrasileira de Projetos para fazer o estudo locacional e geofísico da retirada da linha férrea da cidade e a construção do desvio ferroviário atual. Com competência e num prazo curto, a empresa de Sérgio Motta materializou a exitosa tarefa.
A Hidrobrasileira era uma empresa de conceito técnico e gerencial impecáveis. Mas era, sobretudo, um núcleo agregador de perseguidos internos pela ordem autoritária. Fernando Henrique, antes de fundar o Cebrape, lá trabalhava. José Serra, ao voltar de um exílio de 14 anos, também. Ao retornar ao Brasil, após longo exílio, o apóstolo Herbert José de Souza (Betinho), igualmente. E outras dezenas de resistentes ao Estado autoritário foram acolhidos por Serjão. Em 1975 foi um dos fundadores do bravo jornal ‘‘Movimento’’ que, em poucos meses, transformou-se na mais poderosa voz pela redemocratização do Brasil.
Assim era Sérgio Motta: um incansável idealista. Aliava o ideal com a eficiência do empresário vitorioso que fazia dessa atividade um instrumento material gerador dos recursos necessários para abrigar, socorrer e financiar os companheiros que estavam na linha de frente da luta contra a ditadura.
No governo FHC, feito ministro das Comunicações cumpriu uma agenda de modernização das telecomunicações que ficará na história. Mais do que isso, foi a ‘‘consciência crítica’’ de um governo que carrega muitos equívocos. Com seu estilo sincero e, às vezes, desaforado ajudou a plasmar uma realidade: o governante não pode e não deve se cercar somente de ‘‘puxa-sacos’’. Não tinha papas na língua e enfrentava tudo e a todos com determinação incomum, daí o apelido de ‘‘trator’’.
Praticamente sem volta à vida há quase uma semana, às 23.45 de domingo a máquina do ‘‘trator’’ parou de vez. Aos 57 anos de idade, aparentando mais de 70, fruto de sua inquietação com as injustiças, Sérgio deixa um exemplo inenarrável de grandes gestos e atitudes coerentes e destemidas no enfrentamentos das adversidades da vida. Humanista integral, o sofrimento de um amigo era seu também.
Morreu Sérgio Motta. Há pouco tempo, Betinho ia embora após longa enfermidade. Aqui mesmo, na nossa Folha, eu escrevia um texto onde terminava citando Serjão: ‘‘Morreu Betinho, de quem fui companheiro, amigo e militante. Meu choro é porque partiu um justo’’.
Meses depois, quem parte deste mundo temporal é o próprio Sérgio. O que dizer. Faço das palavras e sentimentos dele minhas palavras e meus sentimentos: ‘‘Morreu Serjão, de quem fui companheiro, amigo e militante. Meu choro é porque partiu um justo’’.
- HÉLIO DUQUE é economista e ex-deputado federal

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