Jean-Paul Sartre, cujas obras, inclusive as literárias, li com admiração nos meus tempos de estudante, cunhou através de uma de suas peças teatrais uma frase da qual nunca me esqueci: ‘‘O inferno somos nós’’. De fato, através dos tempos, o homem tem criado seus infernos particulares causados pela ignorância, pela vaidade, pela intolerância, pela ganância, pelo egoísmo, só para citar apenas alguns defeitos mais graves da nossa espécie.
Essa ‘‘essência’’ pouco virtuosa do ser humano sempre extrapolou os sistemas engendrados pelas sociedades, tanto os do passado como os do presente, tendo existido em todas as épocas históricas. Na escravidão, no feudalismo, no capitalismo, no fracassado socialismo, na atual continuação do capitalismo cujo apelido da moda é o neoliberalismo, o gênero humano não foi melhor nem pior. Em resumo, das cavernas à atualidade sempre houve motivos de choro e ranger de dentes nos infernos criados pela humanidade.
Naturalmente, existem algumas épocas que são melhores que outras, talvez por serem mais produtivas, mais justas ou mais belas. O Renascimento, por exemplo, que teve seu início na Itália, foi um destes períodos. E suas causas, citadas pelo historiador Edward McNall Burns, dão uma idéia do porquê do brilhantismo deste tempo. Vejamos algumas delas: ‘‘O surto de um comércio florescente; o crescimento das cidades; a renovação do interesse pelos estudos clássicos; a fuga progressiva da atmosfera de misticismo e ascetismo da primeira fase da Idade Média; o incremento dos interesses intelectuais possibilitado pelo aparecimento das universidades; os progressos do naturalismo na literatura e na arte; o desenvolvimento de um espírito na pesquisa científica’’.
Entretanto, não pensem os leitores que tais avanços modificaram as atitudes humanas na política e na sociedade, e Paul Larivailli, em seu livro ‘‘A Itália no tempo de Maquiavel’’, nos dá a dimensão dos comportamentos existentes através dos fulgores e paradoxos italianos, onde a crueldade e a ambição nunca deixaram de existir. Para exemplificar, segue-se o seguinte parágrafo da obra citada, referente à cidade de Ferrara:
‘‘Quando Hércules I chega ao poder em 1471, seu sobrinho Nicolau, filho de Lionel d’Este e herdeiro legítimo do ducado, encontra-se sob a proteção dos Gonzaga em Mântua, de onde ele arma intrigas, apoiando-se nos partidários relativamente numerosos com que conta em Ferrara. Desse modo, a reação do novo duque não se faz esperar. Antes do fim do ano, um partidário dos Gonzaga é espancado, degolado e finalmente esquartejado em praça pública, enquanto o próprio Nicolau só escapa por milagre a um envenenamento minuciosamente preparado’’.
Como se nota, no Renascimento italiano a política era literalmente um caso de vida ou de morte. Ao mesmo tempo, segundo Larivailli, a população sucumbia ao peso de pesados impostos que serviam para pagar os funcionários públicos de Ferrara, enquanto entre os camponeses, trabalhadores, artesãos e pequenos comerciantes a fome grassava e a miséria era grande. Observe-se que nessa época tais condições não podiam ser atribuídas ao imperialismo yankee, ao neoliberalismo, à globalizaçao ou a coisa que o valha.
Tudo indica, porém, que os homens não se interessam pela história. Deste modo, pensam que a corrupção, a injustiça e as desigualdades sociais começaram no seu tempo. E sendo que dificilmente assumem a culpa pelo seus erros individuais, ou os de sua sociedade como um todo, passam a atribuí-los a outros homens ou a outras sociedades, para que se sintam assim redimidos do inferno que criaram para si próprios. Isso conduz à cegueira social consentida, ao falso apaziguamento das consciências, à exasperação da hipocrisia, à potencialização da ignorância de onde se origina o inferno.
Desse modo, já vai cansando a cantilena contra a globalização, esse processo inevitável, previsto pelo próprio Karl Marx, só que pela ótica errada. Afinal, foi ele que lançou o brado: ‘‘Proletários de todo o mundo, uni-vos! Mas foi o capital que se uniu, enquanto o socialismo espalhado pelo mundo sucumbiu sob os escombros do Império soviético.
Agora, a esquerda que revolve o cadáver de sua utopia, sataniza o neoliberalismo como sistema desumano e cruel. Propositadamente são esquecidos todos os crimes e abominações cometidos em nome da hipotética sociedade sem classes, e que variaram da castração da liberdade individual aos ‘‘males da igualdade’’ analisados por Tocqueville, significando igualar por baixo como fizeram a União Soviética e outros países comunistas, que igualaram a todos na miséria, exceto a casta governante que continuou com as regalias inerentes ao poder.
O que querem, então, as cassandras socialistas no Brasil? Certamente, apenas o poder, porque no lugar do neoliberalismo e da globalização até agora só apresentaram choro e ranger de dentes. E essa é a grande falha das nossas esquerdas, pois seus discursos do momento, vazios, apocalípticos e eleitoreiros, apenas buscam culpados, apostam no quanto pior melhor, e se mostram incapazes de apresentar soluções. Deste conhecido inferno, que Deus nos livre.

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