Chimpanzé, Maquiavel e Ghandi
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quinta-feira, 10 de julho de 1997
Gaudêncio Torquato 
A democracia é um jogo de cooperação e oposição. No jogo de cooperação, as regras são a persuasão, a negociação, os acordos, a busca de espaços de consenso. No jogo de oposição, procura-se medir forças, confrontar o adversário, provocar tensões, desgastar, impor a vontade pela força. No Brasil, as manobras divisionistas vencem as táticas de cooperação e é por isso que o país anda devagar. As reformas caminham a passos lentos. E não se pense que a oposição, neste caso, é feita pelos chamados partidos de esquerda, a partir do PT. O confronto mais forte provém de grupos incrustados nas entranhas do próprio Governo, que lutam por espaços de poder e influência. As querelas entre integrantes do PFL, PSDB, PMDB e outros partidos da base governista, amparadas na divisão de recompensas, acabam imprimindo ao país um jogo de soma zero. O que se avança de um lado, se tira do outro.
Para usar a concepção do sociólogo espanhol Carlos Matus, em seu ensaio Estratégias Políticas, entre nós, o estilo chimpanzé de fazer política, baseado no projeto do poder pessoal, da rivalidade permanente, da hierarquização da força, supera até mesmo o modelo Maquiavel, onde o personalismo do Príncipe, eixo do sistema, se subordina a um projeto de Estado. Na verdade, o que precisamos é uma luta entre dois estilos. De um lado, o setor político, inspirado no lema o poder pelo poder, trabalhando com capricho, usa a arma do voto para atingir o objetivo de preservar e ampliar territórios e influência. Para tanto, adota a tática de disparar processos de tensão, ameaçar o Governo com retiradas de apoio, buscar colisões de um lado e de outro. A natureza política é como o instinto do chimpanzé, para quem o ideal de vida é a conservação da própria espécie (o fim sou eu mesmo.) A representação popular fica em segundo plano.
De outro lado, está o presidente Fernando Henrique, com um estilo maquiavélico. Seu discurso não deixa dúvida: ele não é o projeto - o projeto é o Brasil - mas a conquista da meta parece impossível sem ele. Por isso, todos os meios e a ética devem se adequar ao objetivo, que é a reeleição. Recentes incursões por territórios estrangeiros, o de Maluf, por exemplo - confirmam o lema que o inspira: na política, não há amigos, só aliados e adversários. Portanto, tudo deve ser sacrificado pelo projeto, até o uso da força e do dinheiro, se necessário. Para atender à competição feroz da classe política, a conduta maquiavélica faz concessões ao estilo chimpanzé, e este acaba ganhando o jogo. Não há como escapar à sensação de que o país fica derrapando. Só grandes movimentos de mobilização empurram o carro das reformas.
Se em cima e no meio, elites e setores organizados fazem a confrontação, em outras margens da sociedade reina um clima de concórdia e solidariedade. Os pobres não têm munição para fazer guerra. No meio dos humildes e marginalizados, reparte-se o pão, cultiva-se a amizade, busca-se a cooperação, o adversário é respeitado e a honestidade é um valor coerente entre a palavra e a ação. A política obedece ao estilo Ghandi, onde o líder representa o consenso, a austeridade e a modéstia. Ele não carece de força física, porquanto repousa seu poder na espiritualidade. Trata-se de um estágio superior de cultura, mas não é necessário alguém se transformar em Papa ou Madre Tereza de Calcutá para alcançar tal grandeza. Espiando um pouco de lado, acha-se alguém de cara honesta. Esse é o estilo que o Brasil precisa incorporar no modelo político.
Nunca precisamos tanto como agora do diálogo, da elevação dos espíritos, da negociação, da convivência, de um pacto por causa coletiva. Temos um grande desafio pela frente: transformar a cultura egocêntrica da política numa cultura sociocêntrica, inspirada na motivação pelos ideais da sociedade. Tivéssemos um pouco mais de estilo Ghandi, os cidadãos sentiriam mais vergonha de cometer atos ilícitos. Por falta de vergonha, porém, o estilo chimpanzé vira moda. Sob as bênçãos de Maquiavel.


