Maigue Gueths
De Curitiba
‘‘Estamos vivendo uma era crucial, de mudança de uma sociedade industrial para uma pós-industrial. Mas, infelizmente, alguns não estão percebendo esta passagem e continuam com a mesma mentalidade da época industrial. Por isso, temos esta sensação de conflito.’’ A afirmação é do sociólogo Domenico de Masi em sua passagem pelo Brasil, numa palestra em Curitiba. De Masi acredita que esta sensação de crise deriva de fatores psicológicos e culturais causados por uma mudança profunda e histórica muito rápida.
De Masi emendou, então, com a história do mundo do trabalho, começando há 7 mil anos no Egito e na Mesopotâmia, que deram origem à agricultura, depois à cidade, descobriram a roda, a moeda, a economia, a escola e a maior invenção da época: a escrita, que permitiu que o ser humano guardasse as descobertas para o futuro. ‘‘Foram tantas descobertas que eles achavam que não havia mais o que descobrir para o bem-estar do homem e para o progresso material.’’
Brincando, ele lembrou que ‘‘os gregos, naquela época tinham a melhor invenção: os escravos, que obedeciam a tudo, enquanto um computador da IBM, hoje, ainda não chegou a esta perfeição’’. No século 12, entretanto, os escravos começaram a rarear e a necessidade de mais mão-de-obra acabou levando ao descobrimento de tecnologias, como o moinho de água, o leme, a vela, os óculos, a pólvora para armas, e a impressão de papéis.
‘‘O século 12 foi afortunado porque é o que mais se assemelha ao século 20. Foi nessa época que se inventou o purgatório. Antes, todas as religiões tinham o paraíso e o céu, uma situação definitiva. Mas os padres inventaram uma área intermediária, uma área sindical, digamos assim, que permitia que as pessoas se salvassem para o paraíso, comprando missas, rezando. Com isso, o comportamento humano tornou-se mais agressivo e os santuários tornaram-se grandes acumuladores de dinheiro. Assim, o que encontramos no século 12 são grandes documentos, tecnologia, grande acúmulo de capitais e a premissa para uma sociedade industrial.’’ Nesse período surgem grandes precursores da industrialização, como Francis Bacon, Descartes e Jean Baptiste Vicco.
No fim do século 18, a sociedade já estava pronta para mais esse grande salto que foi a industrialização. ‘‘A razão era tudo’’, aponta De Masi, lembrando dos pensadores da época: Adam Smith, que dizia que não basta viver, mas que é necessária a abundância com a parcialização das tarefas; ou Thomas Hobbes, que dizia que para enriquecer era necessário comportar-se como um lobo diante de outro, ou seja, como se os outros fossem inimigos. ‘‘Foi a grande definição de concorrência de mercado.’’
Assim como a sociedade industrial surge no fim do século 18, ela se esgota em meados do nosso século, ‘‘mas em 200 anos, ela mudaria toda a sociedade. Onde havia zona rural, surge uma fábrica, trazendo junto a idéia da racionalidade. E tudo que é mais racional é masculino, diz respeito à produção e é feito na empresa. Por outro lado, o que é feminino lembra a reprodução e é feito em casa. Este conceito levou a diferenciar o que é vida e o que é trabalho’’, resume o pensador italiano.
Tanto que até o fim do século 18, o trabalho era algo marginal, feito pelos escravos. ‘‘E até os escravos trabalhavam só quatro horas por dia e viviam melhor do que os executivos atuais, que trabalham até 12 horas. Depois, pela primeira vez, os pobres começam a trabalhar muito e os ricos também.’’ Nessa época, apontou-se também para a especialização e a eficiência máximas, de modo que o trabalhador repetia o mesmo ato tantas vezes até chegar à perfeição. Os três grandes objetivos da época eram a máxima acumulação de lucro, de poder e de objetos. Este tipo de sociedade tem como epicentro a produção de bens tangíveis, como TVs, carros, geladeiras.
‘‘O poder, que antes estava nas mãos dos proprietários de terra, passou para as mãos dos industriais. Mas não foi uma passagem pacífica. Mais de 3 mil cabeças foram cortadas na Revolução Industrial Francesa, nos Estados Unidos, na Inglaterra. Aconteceram duas grandes guerras, e veio a ideologia do consumismo e da alienação.’’ A mudança pode ser sentida pelo crescimento populacional. De 400 mil pessoas em 1801, a população passou para 6 milhões em 1901.
De Masi reconhece que apesar do ‘‘signo do gigantismo’’ da época, também se deram muitos progressos como a expectativa de vida, que antes era de apenas 30 anos e passou para 70 anos no fim da sociedade industrial. A qualidade de vida também melhorou. Dos 6 milhões de habitantes, 1 milhão tinham qualidade de vida ótima; para 4 milhões era média e para 1 milhão permaneceu péssima, mas com esperanças de melhorias.
Duzentos anos depois passamos para a era pós-industrial, também chamada de ‘‘Terceira Onda’’ por Alvim Toffler, que chega eliminando empregados e executivos, substituindo-os por computadores. ‘‘O poder muda de mãos de novo, agora para quem detém a informação. O centro não é mais a produção de grandes bens materiais, mas os bens intelectuais, a estética, informação, ciências, artes.’’ Mas, conforme De Masi, ‘‘poucos perceberam quando esta mudança aconteceu, e continuam vivendo na mentalidade anterior’’.
As grandes mudanças da pós-industrialização, para ele, são o progresso tecnológico extraordinário, não apenas da informática, mas em outras áreas como farmacologia, a aplicação do laser etc.; o desenvolvimento organizacional do trabalho, permitindo maior produção com os mesmos elementos produtivos; a globalização, com seus prós e contras. ‘‘Como a instalação de fábricas expandindo-se de países desenvolvidos para a Bahia, Rio Grande do Sul e Curitiba, que vão poluir, dar pouco trabalho e daqui a alguns anos serão automatizadas e despedirão seus funcionários’’.Sociólogo italiano revisa a relação entre trabalho, desenvolvimento e descanso, afirmando que o mundo não sabe trabalhar
José SuassunaCOMPARAÇÃODe Masi: ‘‘Os escravos trabalhavam só quatro horas por dia e viviam melhor do que os executivos atuais, que trabalham 12 horas’’

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