Chegamos aos 10%. Mas, será que isso é, de fato, uma vitória?
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quinta-feira, 07 de março de 2019
A mulher está em alta. Em alta nas discussões sobre papéis, posições, o quanto ela representa, a sua capacidade de lidar com várias situações ao mesmo tempo, o lugar que ela merecia ocupar na sociedade, mas ainda não ocupa. Só o fato de termos, à nossa mão, tantas notícias, dados e levantamentos sobre o tema já é, sim, uma vitória.
Estes números giram em torno de 10%. Cerca de 10% dos cargos de alto escalão de governo no mundo são ocupados por mulheres. Nas empresas, um pouco menos, apenas 5% dos CEOs das maiores empresas são mulheres. 9,6 % de prêmios Nobel. Mas, infelizmente, as estatísticas também giram em torno deste número para o outro lado. Tivemos mais de 60.000 casos de estupro no Brasil em 2017, um crescimento de 10% em relação ao ano anterior. Estima-se que apenas 10% dos casos sejam denunciados. E destes, apenas cerca de 15% dos acusados foram presos. São números, estatísticas e notícias que incomodam. Mas falam. E só falando será possível mudar estes números.
Como a paisagista Elaine Caparroz, que teve a coragem de falar e mostrar-se, na esperança de ajudar outras mulheres para que não tenham que gritar por 4 horas enquanto forem agredidas antes de obter socorro. Socorro que não chegou para Tatiane Spitzer, que também lutou e gritou com todas as suas forças antes de ser assassinada pelo marido. Casos como estes nos mostram que a violência contra a mulher ainda é tolerada em nosso País como se fosse parte da realidade.
Vale deixar aqui algumas reflexões. Se nestes mesmos ambientes - prédios de moradores de classe média e média alta -, os gritos e pedidos de socorro tivessem vindo de um homem eles seriam acudidos mais prontamente? No caso de ouvir, neste ambiente, um homem pedindo socorro, este pedido soaria mais legítimo? Pensaríamos nós que uma voz masculina pedindo socorro está sendo violada injustamente - um roubo, um ataque?
Por que será que ainda não damos esta credibilidade à mulher? Será que, no fundo, pensamos que ela deve ter feito alguma coisa para merecer estar naquela situação? Por que será que precisamos ouvi-las gritar por horas, vê-las correr, fugir e lutar para dar-lhes um voto de confiança? O que faz com que sejamos tão complacentes com cenários assim? O que acontece, então, longe da classe média? Por quanto tempo essas mulheres deveriam gritar até serem ouvidas?
Dias atrás estava contando um caso a alguns amigos. Voltando de um jantar com algumas amigas, vimos um homem agredindo sua namorada, que já estava no chão, na saída de um bar. O lugar era mais simples, mas ainda assim contava com segurança e tinha muitas pessoas lá dentro. Ninguém a ajudou. Chamamos a polícia e ele fugiu, mas disse que voltaria. E a namorada se negou a ir embora, insistimos, mas ela disse que ficaria ali o esperando retornar.
Qual a nossa reação quando ouvimos uma história como essa? Sejamos honestos. Na roda de conversa em que eu estava, os adjetivos usados para a menina foram de safada para baixo. "Tem MUITA mulher que gosta mesmo é de apanhar! Ela merece apanhar." Eu não tinha terminado a história - a menina ligou para casa e contou à família que tinha apanhado por se recusar a ter relações com o namorado naquela noite. E a resposta de sua família foi a mesma - se era só isso que ele queria, "ela merece apanhar".
Rebeca Lins é diretora administrativa da Belagrícola



