Em junho deste ano, a OMS (Organização Mundial da Saúde) revisou a CID 11 (Classificação Internacional de Doenças) e incluiu no rol de doenças a patologia mental decorrente do uso compulsivo de jogos eletrônicos. A quantidade de horas dedicadas ao uso da tecnologia digital por adolescentes e jovens é fonte de preocupação para pais e tema constante em discussões de educadores. Inúmeros estudos associam o excesso de tempo gasto com smartphones e redes sociais ao aumento dos casos de insônia, angústia e depressão.

Mas além do comprometimento à saúde mental, a grande quantidade de horas gasta em frente as telas também está relacionada ao aumento da criminalidade praticada por adolescentes e jovens e o problema deve ser tratado da mesma forma como se tratam as dependências químicas. É o que afirma a doutora em Tecnologia e Sociedade, presidente do Instituto Tecnologia & Dignidade Humana e membro da Comissão da Criança e do Adolescente da OAB-PR, Cineiva Campoli Paulino Tono, que cobra leis e políticas públicas para minimizar a vulnerabilidade de crianças e jovens a riscos que a internet possa trazer.

Tono é uma das autoras do livro Vozes do Cárcere (Editora CRV, 2015), obra que teve origem em pesquisas realizadas em 22 presídios do Paraná nos anos de 2011 e 2015, e em seus estudos concluiu que a violência está, sim, relacionada ao uso excessivo da tecnologia. A doutora esteve em Londrina recentemente para participar do evento "Era Digital - Benefícios e Riscos", inserido na programação da 1ª Semana Municipal de Justiça Restaurativa de Londrina, promovida pelo Compaz (Conselho Municipal da Cultura de Paz), e conversou com a FOLHA sobre o tema.

"Existe um lado sombrio do uso das tecnologias que pouco ou quase nada está sendo conotado nas políticas de inclusão digital", afirma  Cineiva Campoli Paulino Tono
"Existe um lado sombrio do uso das tecnologias que pouco ou quase nada está sendo conotado nas políticas de inclusão digital", afirma Cineiva Campoli Paulino Tono | Foto: Saulo Ohara



A senhora realizou uma pesquisa com pessoas encarceradas na área de violência. No estudo, é possível perceber a relação entre violência e o uso de tecnologia?
Fizemos duas pesquisas em 22 presídios do Paraná na área de violência e na área de drogas em 2011 e aplicamos um questionário com 23 perguntas à população carcerária cuja maioria se concentrava na faixa etária dos 18 aos 28 anos de idade. Entre outras questões, perguntamos se eles achavam que havia relação entre violência e uso de tecnologia. Tinha uma pergunta aberta onde deixamos livre a descrição do que eles achavam importante enfatizar. Foi quando nós percebemos que o uso de drogas se destacou e eles pediam e alertavam para cuidar da criança e do adolescente que estão abandonados em frente as telas. Eles falavam declaradamente: se antes era fácil aliciar crianças, se antes era fácil o próprio cometimento da pedofilia, hoje a tecnologia potencializou isso, além de outros crimes contra a honra, como calúnia e difamação. Eles próprios relataram a facilidade que está sendo, na atualidade, cometer crimes utilizando a tecnologia. E quatro anos depois, em 2015, quando realizamos a pesquisa sobre drogas, apresentamos uma lista de drogas para que eles indicassem quais consideravam de grande risco para a sociedade. Entre as alternativas, colocamos as tecnologias digitais e muitos deles as indicaram como mais um instrumento que conduz à compulsividade. Legitimou tudo aquilo que, teoricamente, nós estávamos avaliando com estudos acadêmico-científicos.


Esse dado surpreendeu vocês, pesquisadores?
Sim. A gente imagina que o preso não tenha o nível de discernimento como aqueles que não estão lá. Mas eles têm e sabem muito bem o que está acontecendo na sociedade. Têm um grau de consciência muito grande do que levou ou do que está levando a sociedade a se desumanizar. O resultado das pesquisas com os presos tem muita preciosidade para indicar e apontar caminhos para prevenir e combater a desumanização. Os presos têm muito o que dizer para a gente desenvolver políticas públicas para prevenção da criminalidade. A gente percebe que os outros poderes, como o Judiciário, por exemplo, já está assinando embaixo da Justiça Restaurativa, tanto no sistema prisional quanto no Cense (Centro de Socioeducação) e nas escolas. O que a gente está precisando é o Poder Executivo ter isso como algo que pode resgatar a humanização da criança, da infância, da adolescência.

O uso compulsivo de tecnologia passou a ser considerado patologia pela Organização Mundial da Saúde...
A OMS, nessa última revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID 11), publicada em junho deste ano depois de 28 anos sem revisar a CID, incluiu a patologia mental decorrente do uso compulsivo de jogos eletrônicos. O uso da tecnologia tem total relação com dependência. Os efeitos no sistema nervoso central, os efeitos no cérebro, são similares à dependência química com substâncias psicoativas.


A senhora relaciona o aumento da população encarcerada ao uso de tecnologia?

Com certeza. Eu vi o primeiro computador chegar às escolas públicas, há 20 anos. A promessa teórica era que esse computador - e muito dinheiro público foi investido e continua sendo para manter as escolas conectadas diariamente - iria favorecer o processo de ensino e aprendizagem, o aluno iria ter mais ânimo de estar na escola. Mas isso não aconteceu. E nós continuamos gastando. Nossa criança e nosso adolescente hoje em sala de aula estão cada vez mais dispersos, desconfiados e descrentes e o professor, desanimado. Esse é o perfil da escola e não é só da escola pública. Por mais que tenha a plaquinha ali, 'lei número tal proíbe o uso de celular se não for para uso pedagógico em sala de aula', tente proibi-los de ficar com fone de ouvido em sala de aula. Você nem consegue. Não existe uma política pública de inclusão digital coerente, consciente. E, se na sala de aula a produção do conhecimento humano está fragilizada, o professor está desanimado, imagina os demais setores da vida dessa criança. Realmente, o número de pessoas aumentou tanto dentro quanto fora do cárcere, porém eles (os encarcerados) estão mais jovens, estão descrentes em relação ao futuro promissor, de trabalhar e estudar. A tecnologia só está potencializando essa fragilidade.


O que é possível fazer?

Existe um decreto de número 4.394/2016 que foi startado pela Secretaria de Estado da Justiça, Trabalho e Direitos Humanos e ali sinaliza a necessidade de fazer prevenção à erotização precoce, ao aliciamento online e à adição à internet, ao vício à internet. Nessa vertente de perigo, de vulnerabilidade da criança na era digital, esse decreto nós gostaríamos que virasse lei, mas lei que fosse cobrada sua execução por toda a sociedade porque nós estamos erotizando nossas crianças precocemente e nós estamos deixando essa criança à mercê do mundo virtual enquanto o seu pai e sua mãe trabalham. E também, infelizmente, estão deslumbrados em frente as telas. A sociedade tem o direito de saber que está adoecendo e essa questão de saúde e de segurança pública precisa ser considerada nas políticas públicas de inclusão digital. Chega de fazer inclusão digital às cegas. Nas escolas públicas já estão fazendo inclusão digital às cegas há mais de 20 anos. Políticas públicas de inclusão digital têm benefícios, porém existe um lado sombrio do uso das tecnologias que pouco ou quase nada está sendo conotado nas políticas de inclusão digital.


O único dispositivo existente é esse decreto de 2016?

Tem também um outro material que foi aprovado pelo Conselho Estadual de Educação em março de 2015. É o primeiro Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos, que tem seis eixos. Um deles é Tecnologia e Dignidade Humana e, nesse eixo, tem um texto com princípios específicos, essenciais, da tecnologia e dignidade humana e depois tem uma lista de sugestões de ações com seus respectivos autores responsáveis por essas ações para prevenir a erotização precoce, aliciamento online, dependência tecnológica e tudo mais. E veja, já teve aprovação do Conselho Estadual de Educação. As universidades estaduais e as escolas públicas estaduais do Paraná devem executar o que está ali enquanto ação desde 2015 e pouco ou quase nada foi comentado sobre isso, então já é um material que está escrito lá, já tem sugestões para prevenir esses males que a gente tanto está combatendo. É outro dispositivo super importante que já galgou todas as instâncias de apreciação e de aprovação e que precisa ser executado minimamente.

E as políticas públicas?

A gente, nos últimos anos, foi tratando de engajar essas instâncias todas, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), com a Comissão da Criança e do Adolescente, o Ministério Público, o próprio TJ (Tribunal de Justiça) e, agora, com os conselhos estaduais que nós temos, com representatividade da sociedade civil e do poder público, e fazendo esses dispositivos. O que precisamos agora é fazer a execução deles. É colocar realmente um desenho de uma política pública, um programa de proteção da criança e do adolescente na era digital, por exemplo. E ali, cada secretaria, de Saúde, da Segurança, da Educação, da Família, assumindo seu compromisso frente a este programa. Isso já é uma política pública.


A senhora acredita que isso não está sendo feito por falta de entendimento da gravidade da situação ou por falta de capacidade estrutural?

Capacidade estrutural tem bastante. A universidade está aí para nos auxiliar a executar qualquer ação de formação, de informação da sociedade, e temos os meios de comunicação para isso. Eu acho que o que está faltando realmente são clareza e consciência sobre esse que é um problema de saúde e de segurança pública. Da atual gestão, foi negligência porque, afinal, tudo isso já foi discutido. Porém, se não cuidarmos, não vai sair do papel. Os países desenvolvidos já estão tratando disso nesse nível. Para você ter uma ideia, os acionistas da Apple e da Google estão cobrando dessas produtoras de tecnologia o auxílio para prevenção ao malefício decorrente disso. Em uma cidade da China fizeram uma lei municipal em que os provedores de internet são desligados à meia-noite para que os meninos não adentrem a madrugada jogando para que não durmam na escola de manhã. Aí você fala "nossa, mas isso vai ser difícil fazer aqui." Não vai porque o mundo todo está sendo mobilizado por conta disso. As escolas do Vale do Silício, por exemplo, de onde vem toda a tecnologia, não tem tecnologia. Os filhos de quem produz tecnologia têm sala de música, de artes plásticas e vão utilizar certamente a tecnologia na hora certa. Enquanto o brasileiro, coitado, já coloca (o celular) na frente do bebê e aquela criança já não vai desenvolver outras partes do cérebro que deveria desenvolver. E a gente não está fazendo nada para prevenir isso.

A senhora é a favor de atitudes extremas como essa da China ou há outras formas de controlar o uso da tecnologia por crianças e adolescentes?

Na China existem centenas de clínicas de desintoxicação de internet. A questão já se tornou um problema de saúde pública. Então, por conta do barateamento da tecnologia, todo mundo tem hoje o celular na palma da mão e eles estão adoecendo. A partir do momento em que a OMS legitimou isso como doença, a gente vai ter que repensar como reter tudo isso. Se eu concordo ou não, sinceramente, eu tenho um filho de 17 anos e não está fácil de eu delimitar que meia-noite ele tem que ir dormir porque no outro dia ele tem os afazeres dele. Claro que o pai e a mãe têm que dar conta disso. Só que no momento que se tornou problema de saúde pública, eu gostaria que o meu provedor tivesse um dispositivo que ele automaticamente desligasse isso e que não precisa o Estado fazer.

As campanhas destinadas aos jovens falam muito de drogas e violência, mas ainda não falam sobre tecnologia. É uma falha?

É uma visão positivista ainda de inclusão digital. Existem os benefícios de uso, a tecnologia é maravilhosa para uso em todas as áreas. Mas é uma política pública de inclusão digital cega que não está vendo todos os malefícios. Na sociedade, a gente não está maduro o suficiente para processar tudo isso.

Qual a função dos pais no papel de orientação dos filhos e como a senhora vê os pais no papel de usuários dessas tecnologias?

Na verdade, os pais são vítimas na atualidade da compulsão ao uso de tecnologia. Neurocientistas e psiquiatras já remontam à necessidade de orientar o pai e a mãe, informar principalmente dos malefícios que podem decorrer do uso demasiado das tecnologias. Os pais devem ser o exemplo, ter equilíbrio em relação ao offline e online na vida deles. Chegou em casa, é desligar e dar atenção devida ao filho para que esse não evolua para um uso compulsivo. O pai e a mãe na atualidade precisam ser orientados, informados de que esse uso da tecnologia pode evoluir para uma patologia mental. E a escola e os meios de comunicação têm um papel fundamental nessa informação.

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