Dois fatores foram determinantes para que a opinião pública européia, em geral tão avessa às regras ditadas pelos Estados Unidos em sua cruzada para manter a hegemonia no planeta, passasse a apoiar e mesmo incentivar o bombardeio da Iugoslávia pelas forças da Otan: o primeiro foi a imagem de intolerância transmitida pelos sérvios ao recusarem um acordo no encontro de Rambouillet, na França. O segundo, as imagens de hordas de kosovares-albaneses escorraçados de sua região, atravessando fronteiras para fugir do massacre promovido pelas tropas enviadas pelo carniceiro Slobodan Milosevic.
De um momento para o outro, os europeus ocidentais se lembraram da invasão de croatas, sérvios, bósnios e albaneses, entre outros povos da antiga Cortina de Ferro, na primeira metade dos anos 90, durante as guerras separatistas na Iugoslávia. E tocaram o sinal de alerta: precisamos parar com isso, já temos imigrantes demais.
Parece perverso, e é. Mas essa é, de fato, a lógica que faz com que governos nada simpáticos à hegemonia americana, como o de Jacques Chirac, apóiem, em nome de uma pretensa ação humanitária, o bombardeio de um país soberano que anda dizimando e expulsando parte de sua população. Se Milosevic é hoje a encarnação do mal, a entrada de mais imigrantes pobres nos ricos países da União Européia é um inferno ainda maior.
Nos últimos quinze anos, a Europa Ocidental, que até a década de 70 se orgulhava de abrigar refugiados políticos (em geral, egressos de suas ex-colônias recém-libertadas ou das ditaduras latino-americanas e asiáticas) e de fato exercia uma missão humanitária importante no planeta, decidiu fechar as portas para imigrantes: e hoje não poupa medidas para construir o que jornais progressistas já apelidaram de Fortaleza Europa.
Também já vai longe o tempo em que países como Alemanha, Itália, Portugal e Irlanda, entre outros, exportavam levas de migrantes para países do Novo Mundo, por falta de oportunidade em suas terras de origem. Mas isso é coisa do passado, e a vocação humanitária desses países não mais contempla a reciprocidade.
De uma espécie de Muro de Berlim cercando o enclave espanhol de Ceuta, em pleno território africano, à construção de centros de triagem de estrangeiros (como os existentes ao lado do Aeroporto Internacional de Zaventem, na Grande Bruxelas), a Fortaleza Europa se municia para impedir o aumento da presença de estrangeiros no interior de suas fronteiras.
As guerras separatistas da Iugoslávia, na primeira metade dos anos 90, despejaram uma legião de miseráveis nas ruas das principais capitais e grandes cidades européias, em geral clandestinos. Também são recentes as dantescas cenas de albaneses amontoados em navios, tentando entrar em território italiano.
A Europa não mais pretende abrigar fugitivos de guerras ou perseguições políticas, que custam dinheiro aos cofres públicos, geram problemas sociais e incham o mercado de trabalho. Muito menos agora, num momento em que a União Européia parece ter superado a dura crise dos anos 80, está afastando o fantasma do desemprego, consolidou a unificação monetária e se orgulha de reunir em seus quinze países-membros um PIB superior a US$ 8,5 trilhões, maior do que o dos Estados Unidos.
O que mais assombra a Europa é que tanto a Albânia como a Macedônia são provavelmente apenas a primeira escala de uma fuga que pode terminar nas praças de Berlim ou nas ruas de Paris.
Azar dos sérvios.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

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