A última Copa do século pode parar o comércio no Brasil, mas não pára a última campanha presidencial. Mesmo com importantes analistas políticos, dos principais jornais do país, viajando para a França, recrutados para escrever a crônica do futebol mundial.
Os candidatos ao Palácio do Planalto estão a pleno vapor, principalmente Lula, Ciro e Enéas. Fernando Henrique já está lá. A disputa que prometia ser morna, para desespero da imprensa que vive disso, esquentou graças a deslizes periféricos devidamente explorados pela mídia oportunista (e para seu próprio gáudio).
Começaram com a falácia de que o presidente Fernando Henrique teria chamado todos os aposentados de ‘‘vagabundos’’. Não chamou, não. O contexto era outro, era de crítica às aposentadorias precoces, com pensões régias, efetivamente descabidas diante do quadro de pobreza da Nação. Mas a mídia disse que Fernando Henrique tinha dito. Fernando Henrique desdisse... E não ficou pelo dito. O subproduto dessa mentira é usado até hoje, e continuará sendo, nas generalidades do discurso da oposição (que cansa ao insistir que o presidente não respeita os velhinhos). Rendeu quinze dias de matéria ‘‘jornalística’’.
Depois veio a fase das pesquisas de opinião eleitoral. Lá vamos nós refrescar a memória a respeito da ciência estatística, as variáveis, o universo pesquisado, o público-alvo, a interpretação, a metodologia etc. Daí surgiu uma agência que apontou empate técnico entre Fernando Henrique e Lula. Era uma pesquisa na qual 70% - 70% - dos entrevistados não opinaram porque não tinham ainda se decidido. O ‘‘empate técnico’’ ocorrera entre os menos de 30% dos entrevistados que escolheriam ou Lula, ou Fernando Henrique. A imprensa oportunista realçou o empate, obviamente. E ao oportunismo somaram a conjuntura (‘‘Se as eleições fossem hoje...). A coisa está rendendo aí seus quinze dias de manchetes.
Quer dizer, a imprensa (parte dela, não ela toda), ao invés de trabalhar no sentido de esclarecer, de elucidar, permitindo ao leitor-eleitor amadurecer suas idéias e preferências, prefere investir na perplexidade arranjada. De vez em quando, numa nota, lançada num ou noutro canto de página (os jornais sérios, que são minoria, têm tratado do assunto inclusive em editoriais), alguém lembra que a oposição - leia-se a dobradinha Lula-Brizola - ainda não mostrou seu programa de governo (decerto querem deixar para mostrá-lo - se é que o tem - mais perto de outubro, quando faltar tempo para ser analisado).
Agora, essa conversa fiada de acusar levianamente o governo federal, e a pessoa do presidente, já cansou. Chega. Só o eleitor ignorante é que continua se deixando influenciar por bravatas, olhos estranhos, vozeirão e discurso raivoso (assim tipo requiônico). O eleitorado mais lúcido (felizmente, não é pouco) quer saber é do conteúdo, do significado, do palavrório.
Quem é que engoliu aquela história da compra do voto dos convencionais do PMDB, na prévia realizada no início deste ano, ao preço dos favores do governo federal? Itamar Franco e Roberto Requião gritaram que Fernando Henrique Cardoso tinha feito balcão de negócios. Na hora de provar o alegado, Itamar afinou e Requião veio com evasivas (dizendo que a ‘‘prova’’ era a mudança ‘‘repentina’’ da opinião dos seus colegas de partido!)
Lula, a seu turno, fiel ao molde sindicalista, sente-se à vontade para falar o que lhe der na veneta sobre o governo federal. Semana passada, declarou à imprensa que o dinheiro da venda da Telebrás ‘‘possivelmente’’ iria para um ‘‘caixa 2’’ do governo, para financiamento da campanha da reeleição. Talvez Lula tenha pensado que estava numa churrascaria, com seus amigos, e não notou a montoeira de microfones ao seu redor. É mais ou menos equivalente a supor que o presidente da República vai roubar o dinheiro da privatização. Falou fiado. Vai ser processado. Bem feito. Lula pode ser o presidente de honra do Partido dos Trabalhadores, mas continua cidadão brasileiro sujeito às leis do País quando ofender a honra de alguém.
O que nós queremos saber é o que a oposição vai fazer com o governo do Brasil se porventura vencer o pleito. Ataques pessoais, insinuações, leviandades. acusações a esmo, isso tudo só revela a ausência de propostas de governo sérias, factíveis, consistentes. Não interessa se a mãe desse ou aquele candidato é séria, nem se esse ou aquele candidato leva a sério ou seu casamento. Vamos tratar de cálculos financeiros, cálculos atuariais, estruturas e conjunturas nacionais e internacionais, soluções e administrações. Pose, só, não impressiona mais ninguém.

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