O presidente Fernando Henrique Cardoso tem, ao longo deste ano, a chance espetacular de encerrar com chave de ouro uma gestão que, sem dúvida, alternou acertos com erros. Passar a faixa para o seu sucessor, eleito democraticamente, seja ele quem for, já bastaria para garantir-lhe lugar de destaque no rol de presidentes do período republicano. Mas isso não só não basta. É no campo da engenharia geopolítica e econômica que FHC poderá deixar um legado de estadista.
A tarefa não é fácil, mas também não é impossível. Trata-se de consolidar o ‘‘descolamento’’ do Brasil da Argentina, num primeiro momento, para manter a capacidade de atrair os recursos externos. Num segundo momento, ajudar o país vizinho a sair da crise para, em seguida, engajá-lo num projeto mais amplo, qual seja o de dotar o subcontinente sul-americano de infra-estrutura básica comum.
Dar início à integração da América do Sul, por meio de obras que lhe garantam fluxo de investimentos contínuos, independentemente de oscilações e crises específicas de cada país, é a melhor maneira de colocar, em caráter definitivo, a região na rota do capital de risco estrangeiro e do desenvolvimento sustentável.
Essa idéia, aliás, já foi debatida e aprovada por governantes e líderes sul-americanos. Falta, no entanto, concretizá-la.
Por enquanto, FHC e o Itamaraty conseguiram evitar o desmantelamento político do Mercosul, o qual abriria o caminho para a formação da Alca por adesão pura e simples - talvez até mesmo anexação - à economia dos Estados Unidos. Mas isso só não basta. É preciso ainda fortalecê-lo e ampliá-lo. Mesmo que a integração regional não avance como deveria, é essencial que o Mercosul se expanda sob a forma de zona de livre comércio.
Quanto mais países-membros tiver o Mercosul, maiores serão as chances de se conseguir um acordo comercial e de investimentos, de longo prazo, com a União Européia (UE). Essa é, a meu ver, a rota mais segura para o Brasil e os demais países da América do Sul negociarem a formação da Alca, em condições minimamente favoráveis, vis-a-vis o dinamismo e poderio da maior economia do planeta.
Se até julho ou agosto, as grandes linhas desse projeto geopolítico subcontinental forem visíveis aos olhos do eleitorado, as chances de FHC fazer o seu sucessor tornar-se-ão cada vez maiores. É óbvio que tudo isso será de pouca valia se outras variáveis importantes, dentre as quais, inflação e dólar sob controle, crescimento econômico e das exportações, reforma tributária, conciliação entre as metas de superávit fiscal e políticas de inclusão social e distribuição de renda, forem negligenciadas.
Como se depreende disso tudo, o presidente necessita mais do que nunca, neste último ano do seu mandato, de ‘‘controladores’’ de confiança para conduzir os problemas domésticos. E ele os tem: o ministro Malan e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Aliviado dessa tarefa, ele terá tempo suficiente para coordenar as ações da diplomacia externa e da campanha sucessória.
Sem esse esforço diplomático, 2002 corre o risco de ser mais um ano medíocre. Mas mesmo as expectativas econômicas - ou seja, inflação de 8%, crescimento de 2%, superávit comercial de US$ 5 bilhões, ingresso de capital estrangeiro de US$ 16 bilhões e juros básicos na faixa de 16% ao ano - , já abrem espaço suficiente para ações de política interna (campanha sucessória) e externa (ação diplomática no Mercosul, União Européia, Alca, OMC - Organização Mundial do Comércio e Mercado Comum Sul-Africano).
Se acrescentarmos a esse cenário a retomada da economia americana, aguardada para o segundo trimestre do ano, o Brasil poderá fechar 2002 com resultados ligeiramente melhores do que os projetados. E FHC, ao dar posse a seu sucessor, deixará Brasília para entrar na história da América Latina.
MIGUEL IGNATIOS é presidente do Conselho Deliberativo da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB)

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