Um formato de jornal
que sobreviva por mais
tempo talvez deva incluir, junto à reprodução dos
fatos do dia anterior,
também uma reflexão mais aprofundada
da realidade


  O primeiro jornal impresso brasileiro nasceu há 200 anos. Detalhe: o ‘‘Correio Braziliense’’ era impresso em Londres, pois a corte portuguesa, recém-chegada, fugindo de Napoleão, proibia tudo o que contrariasse ‘‘a religião, o governo e os bons costumes’’. Desde então muitas pedras rolaram, muitos jornais foram criados. Nesse período, surgiram o rádio, a televisão e, finalmente, a internet. Há aproximadamente dez anos, ouve-se falar da crise dos jornais impressos. Sobretudo depois da internet, muitos dizem que os jornais são lerdos. Trazem o que todo mundo já viu na tela do computador. Alguns chegam a referir-se aos jornais como ‘‘um adorável e antiquado feixe de tinta e celulose’’, ou como ‘‘artefato digno de ser exposto num museu’’.
  A crise também se refletiu nas contas dos jornais. Sua participação no ‘‘bolo publicitário’’ diminuiu. Some-se ainda o fato de que o preço do papel, quase todo importado, também sofreu grande alta em determinado período. Na época em que a cotação do dólar chegou a R$ 4,00, muitos jornais quebraram. Um editor do New York Times diz que há um clima de funeral entre os editores. Segundo ele, um pergunta ao outro ‘‘como você está?’’ em um tom similar àquele usado quando alguém acaba de sair de uma desintoxicação ou de um divórcio.
  Para o escritor americano Philip Roth, as telas ganharam a batalha contra as páginas, sejam as dos jornais, sejam as dos livros. ‘‘Perdemos’’, diz ele. Perguntado sobre o paradeiro dos leitores, responde: ‘‘Estão olhando para as telas de seus computadores, as telas de televisão, dos cinemas, dos DVDs, distraídos por formatos mais divertidos’’. O problema de fundo, sugere, é que o hábito da leitura desapareceu. Não há mais a concentração, a solidão, a imaginação que o hábito da leitura exige. ‘‘Ler será um hobby de uma minoria’’, decreta de maneira pessimista.
  A evolução tecnológica sempre alterou substancialmente nossas vidas. A internet tem esse efeito. Ao mesmo tempo em que facilita as coisas, na medida em que podemos cumprir muitas tarefas sem sair de casa, ela às vezes nos aprisiona, consumindo nosso tempo. Esses formatos ‘‘mais divertidos’’ têm também outros efeitos colaterais: junto à diminuição do hábito da leitura, contribuem também para a irrelevância atual da existência das pessoas como seres pensantes. Pensar, em um sentido forte, é algo fora de moda. Talvez também passe a ser apenas ‘‘um hobby de uma minoria’’. Provavelmente essa mesma minoria que continuará a ler jornais.
  Nesse contexto, uma das soluções foi modificar o formato dos jornais, diminuindo-os. Essa solução, porém, está longe de ser unânime. Molly Ivins, falecida colunista de jornal nos Estados Unidos, reclamou da solução de ‘‘tornar o produto menor, inútil e desinteressante’’. Mas os tempos parecem não ser tão nebulosos assim. A venda dos jornais no mundo cresceu 2,6% em 2007. No Brasil, a alta foi de 11,8%. Quanto à participação dos jornais na receita de publicidade em geral, no primeiro trimestre de 2008 houve um aumento de 24%. São 19,4% em marco, contra 3,2% da internet no mesmo período. Esses dados mostram ‘‘o interesse e a confiança de leitores e anunciantes e coloca em xeque previsões pessimistas’’, pois ‘‘os jornais condensam uma credibilidade difícil de ser replicada e funcionam como uma bússola para o leitor imerso no caos informativo atual’’, diz a editora-executiva do principal jornal brasileiro.
  Rupert Murdoch, dono do maior grupo de comunicações do mundo, que inclui diários impressos como o Wall Street Journal, afirma que o investimento em conteúdo é a melhor alternativa, pois o crescimento mundial faz crescer também a demanda por informação de qualidade. O ombdsman de um grande jornal nacional também vem defendendo a melhora de qualidade como a melhor saída. Solução bem diferente daquela que defende a diminuição e simplificação dos jornais. Como leitor, acredito que a simplificação excessiva dos jornais torna-os uma espécie de impressão de página de internet. Assimila os defeitos da transmissão de notícias via internet, sobretudo quanto ao tratamento mais rápido e superficial dos temas, que são como pequenas pílulas, rapidamente digeridas. Por outro lado, não consegue assimilar suas virtudes, pois a agilidade da internet não pode ser reproduzida.
  Portanto, um formato que sobreviva por mais tempo talvez deva incluir, junto à reprodução dos fatos do dia anterior e de outros fatos diversos, também uma reflexão mais aprofundada da realidade. Em um mundo em que cada vez mais crescem as esferas privadas, um jornal passa a ser ainda mais indispensável como ambiente adequado para discussões de interesse geral ou público.

GABRIEL BERTIN DE ALMEIDA é advogado e professor da PUC/PR campus Londrina

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