Charbonneau
Charbonneau
Ser livre é escolher, escolher é julgar e julgar é responder, pesar as coisas e reconhecer-se responsável por sua escolha (Padre Paul-Eugéne Charbonneau)
J. Roberto Whitaker Penteado
Há quase 10 anos, morria, em São Paulo, aos 61 anos, um grande brasileiro, que - a exemplo de outros brasileiros ilustres como Caribé, Oscarito e o professor Paulo Rónai á- não era nascido em nosso país: o padre Paul-EugSne Charbonneau. Nosso Charbonneau nasceu no Canadá, numa cidadezinha da província de Quebec com o nome poético de Sainte-Agathe-des-Monts.
O jovem Paul-EugSne reunia predicados contraditórios: ao iniciar seu noviciado, em 1944, havia-se destacado no pugilismo e como jogador de hóquei (no gelo) na sua escola. Isso talvez explique a formidável energia, que a todos impressionava, na abordagem de suas tarefas de sacerdote. Os que o conheceram sabem que nunca deixava nada por fazer, ou pela metade...
Tive o privilégio de conhecer o padre Charbonneau de perto, graças a um longo e proveitoso período de convivência com a Escola de Pais do Brasil, organização modelar fundada em São Paulo pelo casal Alzira e Antonio Lopes e que teve nele, no padre Leonel Corbeil e no Colégio Santa Cruz alguns dos seus principais pontos de referência. Com ele aprendi verdadeiras e preciosas lições de vida.
Charbonneau não enxergava qualquer conflito entre a sua profissão de sacerdote da Igreja e o desempenho próprio a um homem de ação, mais comumente associado a atividades leigas. Por isso, no Brasil, esteve ligado a dois movimentos sociais: a Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresa e a Escola de Pais. Embora tenha chegado - via ADCE - a ser um dos conselheiros da Associação Comercial de São Paulo, sua paixão maior e mais verdadeira foi a Escola de Pais, desde a fundação, em 1964, até sua morte, 23 anos depois. De fato, a morte interrompeu o trabalho que iniciava, sobre a Aids, para divulgação nas escolas.
A Escola de Pais foi uma continuação do trabalho que Charbonneau iniciara com casais. Como humanista, cedo percebeu as injustiças sociais e as necessidades urgentes de mudança, em que a Igreja podia participar. E, como filósofo e intelectual (são mais de 20 os livros que escreveu), percebeu que a família era o canal mais indicado para esse trabalho. De fato, ao lidar com o sentimento de amor que transformava os homens e mulheres em casais e com os núcleos familiares a que davam origem, Charbonneau estava trabalhando com as células mais estáveis - e críticas - da sociedade. Mais que isso, ao dar destaque à função educativa da família - hoje universalmente aceita, tendo-se demonstrado, na teoria e na prática, a importância dos anos pré-escolares para o desenvolvimento futuro da personalidade das pessoas - ele, como outros que acreditaram na função dessa importante escola para pais e mães, fazia um firme investimento no futuro da humanidade.
De fato, se apenas duas ou três gerações se dedicassem a corrigir os erros terríveis que se cometem, na tentativa de passagem dos conteúdos culturais e éticos, no interior das famílias, uma humanidade nova e mais saudável poderia surgir, como resultado. Uma visão ideal, mas própria dos reformadores.
Gosto de pensar que Paul-EugSne Charbonneau tenha atingido os seus objetivos. Num livro que acaba de ser editado (Charbonneau - ensaio e retrato, de Alberto Martins, São Paulo: Scipione Cultural), o autor relata que se contam, aos milhares, não só no Brasil, mas no resto da América Latina, os casais que participaram dos seus encontros e ouviram suas longas conferências - quase à la Fidel Castro - em que exercia inimitável oratória. Nos últimos anos, aliás, só eram interrompidas pelas limitações médicas aos excessos que este bom e enérgico padre nunca deixou de cometer, em defesa daquilo que considerou justo e certo. Noções que foram, certamente, resultado das escolhas livres e ponderadas que fez, tendo-se assumido um pouco responsável por todos nós, que o amamos.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.





