CHÃO QUE SE ABRE SOB OS PÉS
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sábado, 21 de setembro de 2002
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Colombo - Rachaduras nas paredes, buracos nos terrenos, açudes e lagos secos, pisos de casas completamente arrebentados. O problema começou em 1996 nos municípios de Colombo e Almirante Tamandaré, ambos na Região Metropolitana de Curitiba. Coincidentemente ou não, na mesma época em que os trabalhos de exploração do Aquífero Karst (águas subterrâneas) iniciaram. Num primeiro momento, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) bombeava cerca de 600 litros de água por segundo. Após as primeiras denúncias de rachaduras e problemas estruturais nas residências, a exploração de água na região foi diminuída para 200 litros por segundo.
Os estudos comprovaram que o terreno ao longo do aquífero era composto por rochas calcárias. Estas rochas são sensíveis ao excesso de água e podem provocar dolinização (queda do topo de cavernas internas) e fendas na terra. Com o tempo, estas fendas fazem com que o terreno ceda. Uma das vítimas da exploração acentuada do Aquífero Karst foi a dona de casa Inês Strapasson, de 37 anos. Há um ano o piso da residência ficou completamente destruído. A terra cedeu e as lajotas quebraram. ''Está tudo cavocado, horrível'', mostra ela.
Inês garante que o desequilíbrio estrutural só tem uma explicação: a exploração do Karst. Desde que começaram os primeiros problemas na casa dela, que fica no Bairro Sapopema, em Colombo, nenhum técnico apareceu para fazer um levantamento da situação. ''Tenho duas meninas com problema de renite alérgica. A renite piora toda a noite por causa da poeira que fica na casa'', relata.
O piso da casa era todo de cerâmica antes dos primeiros abalos serem constatados. ''Tentei arrumar duas vezes, mas não consegui. Quanto mais se cavoca, mais afunda a terra. Perdi tudo. Os móveis acabei dando. Não adianta manter coisas aqui'', diz. A cozinha da casa foi montada na garagem e a lavanderia fica do lado de fora, no quintal.
Casos como o da dona de casa foram estudados pela Mineropar. Em 1998 foi feito e distribuído um guia para as prefeituras da Região Metropolitana de Curitiba sobre os problemas de solo de oito municípios. São eles: Colombo, Almirante Tamandaré, Itaperuçu, Rio Branco do Sul, Bocaiúva do Sul, Campo Largo, Tunas do Paraná e Campo Magro. No manual, constam os principais acidentes geológicos em áreas consideradas urbanas com indicações dos processos de acidentes que podem ocorrer. A intenção era orientar as prefeituras para a aprovação de planos diretores e de uso e ocupação do solo.
O estudo feito pela Mineropar foi apresentado para a Coordenadoria da Região Metropolitana (Comec). A assessoria de imprensa do órgão informou à Folha de Londrina que estão sendo concluídos os estudos realizados em cima da pesquisa da Mineropar. Com o relatório em mãos poderão ser tomadas iniciativas no sentido de evitar a proliferação dos problemas na região do Karst.
Problemas que se repetem a cada ano. No último dia 12, o lavrador Luiz Antônio Strapasson teve que conviver com o desabamento da terra na parte de fora da casa. Exatamente embaixo do vaso sanitário do único banheiro da residência. Desde então, Strapasson não pode usar o banheiro para qualquer atividade normal dos cinco moradores da casa. ''A gente tem que pedir emprestado o banheiro de familiares e amigos.''
O lavrador agradece a Deus o fato de ninguém ter se acidentado. Ele não aceita a justificativa de que o local está sujeito a fenômenos naturais. De acordo com Strapasson, nos mais de 40 anos que vive no local nunca viu nada parecido ocorrer. Só depois do início da exploração do Karst. A opinião dele é compartilhada pela mulher, a dona de casa Sueli Guarise Strapasson, 44. ''Isso ocorreu por causa de excesso de água que a Sanepar está tirando na região. Com certeza. Fontes aqui estão secando. A situação está complicada. O que a natureza nos deu, a Sanepar está nos tirando'', reclama. Sueli diz que a população local vai lutar para encerrar a exploração do Karst. ''A gente quer estabilidade no nosso terreno. Não podemos abrir mão de um terreno que é nosso e compramos pensando em nossos filhos e netos.''


