A CPI da CBF-Nike ou do Futebol, salvo seja uma exceção, corre o risco de transformar-se em mais um imenso palco televisivo. A experiência tem demonstrado que, apesar da enxurrada de denúncias, os resultados práticos das CPIs anteriores são quase nulos; quando muito, transformam seus efeitos numa espécie de mal menor.
Por exemplo: a CPI dos Anões do Orçamento mostrou quanto os cofres foram saqueados. No entanto, os parlamentares envolvidos em falcatruas e roubos não foram punidos como se esperava. Uns foram cassados; outros, astutamente, renunciaram para escapar da cassação. Aliás, alguns destes retornaram à vida pública nas últimas eleições, livres, soltos e impunes.
Os parlamentares, com boa dose de razão, alegam que sua função não é julgar, mas apenas apurar as denúncias e enviá-las ao Ministério Público. Daí em diante não lhes compete mais intervir. Se pelo aspecto legal os congressistas estão corretos, digamos que pelo ângulo político eles deixam a desejar.
Nos últimos anos, a Justiça tem sido mais sensível aos apelos e manifestações populares. Acontece que este clamor não surge por acaso; é necessário que a sociedade se deixe contaminar pelo que vem à tona e tome consciência da importância de sua participação no processo. O impeachment de Collor só aconteceu quando a população, principalmente os caras-pintadas, saiu às ruas exigindo do Congresso e do Poder Judiciário as medidas cabíveis.
Na prática, o que vê é que apesar da importância dos temas discutidos e investigados pelas CPIs, eles parecem distantes da realidade. Sem dúvida que isso não é verdadeiro. Afinal, o narcotráfico não faz distinção de classe ou posição social; ou então, os precatórios, que foram surrupiados dos bolsos de milhões de brasileiros que pagam seus impostos.
No entanto, o futebol desperta muito interesse. Afinal, trata-se do único esporte que é uma espécie de unanimidade. As evidências de que há inúmeras irregularidades no futebol é fato público e notório. O volume de recursos movimentado pelos clubes, federações, os valores dos passes dos atletas, o enriquecimento de empresários, cartolas e até mesmo os salários pagos pelos clubes, envolvem montantes que fogem a compreensão de qualquer mortal comum.
Por mais que se justifique o interesse das grandes empresas em explorar a imagem dos atletas através de gigantescas campanhas de marketing, há muita coisa nebulosa e que não se consegue explicar direito. O contrato de parceria entre a CBF e a Nike, por exemplo, é um segredo de Estado. Até agora, os depoimentos de cartolas, entre eles o próprio presidente da CBF, Ricardo Teixeira, não trouxeram absolutamente nada de novo que pudesse dissimular as dúvidas quanto a valores ou condições impostas por ambos os lados.
O ceticismo em relação à CPI começa quando um dos personagens que mais contribuem para o descrédito do futebol, o presidente do Vasco da Gama, deputado Eurico Miranda, é justamente o vice-presidente da própria CPI. Quando se imaginava que ele – junto com o presidente da Federação Carioca de Futebol, um certo ‘‘Caixa-d’Água’’ – seriam inquiridos de maneira incisiva, o que vemos é um debate regimental sobre os estatutos internos do Congresso no sentido de não permitir que certos temas avancem e cheguem ao conhecimento público.
A despeito da integridade ética do deputado federal Aldo Rebelo, por si só não será capaz de dar garantias que esta investigação chegue a bom termo. Daí a importância em se buscar o apoio da sociedade, principalmente deste segmento, os torcedores, esta massa que vibra nos estádios pelos seus clubes e ídolos, mas que na verdade se transformaram em massa de manobra para encobrir as maracutaias de dirigentes, empresários e clubes.
O deputado Ulysses Guimarães costumava dizer que a revolução no Brasil era improvável enquanto houvesse futebol e Carnaval. Se estivesse vivo, é possível que instalasse uma barraca defronte o Morumbi ou Maracanã para pedir a tigrada o apoio necessário, em nome da moralidade do futebol. Já imaginou 100 mil pessoas gritando em coro: CPI já! Sem dúvida seria o maior espetáculo da política brasileira na verdadeira ágora do povo.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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