Maria Lucia Victor Barbosa
No Brasil, a cultura plasmada através das instituições familiares, religiosas, educacionais, políticas e outras mais, adveio no bojo de um processo histórico que imprimiu vários traços em nosso caráter social. E isto permite, malgrado as diferentes personalidades individuais, que se diferencie um todo onde a repetição sistemática de comportamentos e atitudes faz emergir uma personalidade coletiva, dotada de características peculiares e facilmente identificada como brasileira, assim como há uma personalidade coletiva francesa, inglesa, italiana, japonesa, norte-americana etc.
Sobre a personalidade coletiva brasileira já foram escritos inumeráveis tratados e elaboradas copiosas teses sob os mais variados ângulos das ciências humanas, sendo impossível abordar tema de tamanha complexidade num pequeno artigo. Mesmo porque, essa temática gera intermináveis e infrutíferas controvérsias acadêmicas entre os que são contra e os que se posicionam a favor da chamada psicologia dos povos. E não é este meu propósito.
O que interessa neste espaço da imprensa, que é diferente daquele das revistas científicas, é apontar um distúrbio da nossa personalidade coletiva, ou síndrome da omissão, adquirida desde o início da nossa formação colonial e capaz de produzir uma série de efeitos tremendamente danosos para cada indivíduo em particular.
A síndrome da omissão pode ser visualizada claramente, tanto na esfera pública quanto na particular. Na pública se materializa através de um paradoxo: o Estado criado com o objetivo fundamental de gerar as leis e fazer cumpri-las, furta-se a tal função. Campeia a impunidade neste paraíso das falcatruas, e a corrupção grassa em todos os níveis governamentais.
Nesse momento, a CPI do Narcotráfico, mesmo que suscite dúvidas acerca de seus resultados em termos de quantidade e intensidade das punições necessárias aos criminosos, pelo menos está levantando uma ponta de iceberg. E o que se vê é de horrorizar. Do submundo do crime não afloram apenas nomes de notórios traficantes, mas emergem figuras de parlamentares, de pessoas que se encontram em altos cargos do Executivo, de desembargadores, juízes, promotores, delegados, policiais, enfim, dos que fazem ilicitamente fortunas fabulosas e rápidas ao contrário dos que trabalham e ganham a vida honestamente.
Se tal fato não permite que se enxovalhe os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário como um todo, por outro lado, diante do vislumbre dessa podridão moral, o que deve fazer o cidadão comum quando sua casa for assaltada, seus parentes assassinados, ou ele mesmo for afrontado em plena luz do dia por marginais? A quem pedir socorro? A quem solicitar justiça? Talvez, num desses momentos de angústia e aflição, alguém possa, num ato falho, gritar: ‘‘Socorro, chamem o ladrão’’, restando-lhe esperar por horas e horas até ouvir o som da sirene de uma radiopatrulha ou de um carro da Polícia, sinal que seu clamor foi atendido.
Queda, assim, a sociedade desamparada. Nas cidades e no campo a violência recrudesce. Perigos espreitam em cada esquina. Em cada propriedade rural ronda o terror das invasões monitoradas a distância por sólidas e bem estruturadas organizações partidárias e religiosas, cujo conteúdo ideológico tem como eixo central a luta de classes, portanto a incitação ao ódio e à violência.
Mas esta sociedade que padece, contém do mesmo modo que o setor público a síndrome da omissão. Há longo tempo ela sofre, cala e é conivente. Seus julgamentos são frouxos, sua moral dúbia, seus heróis equivocados, e há uma complacência exagerada neste país para com os desonestos e mesmo para com os bandidos.
Entretanto, esboça-se um processo de mudança. Pouco a pouco se forma uma opinião pública que repudia a violência, a corrupção e o banditismo. Isso gera claros reflexos, como o que está acontecendo com o Partido dos Trabalhadores (PT). Tanto é verdade, que apesar da manutenção da virulência das várias alas ‘‘xiítas’’, alguns líderes do partido fazem agora declarações que há pouco tempo pareceriam impossíveis, como as do deputado José Genoino que afirmou na revista ‘‘Veja’’ do dia 17: ‘‘Não tenho mais o marxismo como referência’’. ‘‘Não podemos abrir mão da democracia que inclui o direito à propriedade’’.
Na mesma linha se apresenta o presidente do partido, o deputado José Dirceu, quando diz em Belo Horizonte, no 2º Congresso Nacional do PT, ‘‘que a esquerda está fadada à derrota se apresentar um programa socialista na eleição de 2002’’ (‘‘O Estado de S. Paulo’’ da última quinta-feira).
Do jeito que vai, não falta muito para alguns petistas adotarem de vez as idéias que tanto condenavam no neoliberalismo, o que não deixa de ser uma tática desesperada para ganhar eleições, inclusive a presidencial. Contudo, o PT não conseguirá facilmente apagar a imagem de radicalismo que o acompanha. Ela é ligada, inclusive, às posturas totalitárias dos ‘‘xiítas’’ contra os que não rezam por sua cartilha, as quais inclui o desagradável patrulhamento ideológico que intimida e cala sobretudo pessoas dos meios intelectuais.
Mas a influência da opinião pública também é perceptível quando se nota que partidos e outras organizações que se rotulam de esquerda, não logram êxito nem em suas manifestações públicas. Então, por que temer seu patrulhamento e seu alarido? Talvez, diga alguém, porque estou só e indefeso, e porque não posso contar com o governo que é tremendamente omisso, nem com os políticos que são imediatistas, nem com os homens da lei que não a praticam, e nem com meus semelhantes que são extremamente egoístas e comodistas. Para consolo de quem pensa assim, a única coisa a dizer é que tudo muda. E que a partir de um lento processo, repleto de erros e acertos, a personalidade coletiva brasileira está mudando.

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