Chamem o Bambam
Faz parrrte! foi a máxima no glossário de Kleber Bambam, o vencedor do primeiro Big Brother Brasil e que virou mania nacional. Agora é o deputado Aloízio Mercadante, uma das maiores estrelas da constelação petista, quem diz que o PT não tem o que fazer em relação às reações do mercado baseadas nos resultados das pesquisas eleitorais. Para ele, avaliar a especulação sob a ótica das pesquisas é da natureza do jogo e, portanto, faz parte.
Entre o possível e o imaginável, Luiz Inácio Lula da Silva alinhavou os principais tópicos que poderão vir a ser implementados a partir de 2003, caso vença as eleições, num documento que chamou de Carta ao Povo Brasileiro. Nele compromete-se, entre outras medidas, com as políticas de estabilidade, controle da inflação, preservação do superávit primário, além de respeitar os contratos e obrigações do País. Mas o partido já avisou: é o máximo de concessão que está disposto a fazer, afinal, entende que a obrigação de governar o Brasil até 31 de dezembro é do governo Fernando Henrique Cardoso.
A rigor, o argumento é correto. No entanto, o país não pode ser administrado de forma tão maniqueísta como pretende Lula. A partir de 1º de janeiro de 2003, não irá surgir, como que por encanto, um novo Brasil capaz de enterrar o passado com suas mazelas e injustiças sociais, bastando um toque de Midas para deixar o inferno e adentrar ao paraíso. Qualquer que seja o presidente eleito, certamente irá enfrentar uma série de problemas de toda ordem. Se justo ou não, o certo é que caso Lula seja o escolhido estas dificuldades serão ainda maiores. E o PT sabe disso.
A responsabilidade de qualquer homem público não significa que, para exercê-la, ele tenha necessariamente que ocupar um cargo. A importância de Lula para o Brasil extrapola as questões política-partidária vividas nestas eleições. Como líder sindical, ele foi responsável pelas maiores transformações ocorridas nas relações trabalho-capital, na década de 70, e depois como dirigente partidário e deputado constituinte foi um ardoroso defensor dos trabalhadores brasileiros. Neste momento, ele deve assumir o ônus da candidatura e tem sim, o dever de expor claramente o que pensa sobre os temas que dizem respeito à Nação.
Quando o deputado Aloízio Mercadante afirma que faz parte , ele quer dizer que o jogo sucessório é pesado e as regras são no estilo vale-tudo. Ora, o chamado mercado nada mais é do que o conjunto de interesses do sistema financeiro internacional em manter seus ganhos cada vez maiores com a menor probabilidade de risco. Sem dúvida que o lucro é o fundamento básico do capitalismo uma espécie de condição suficiente e necessária. Daí que não cabe qualquer crítica a ganância dos investidores, afinal os lucros e perdas são compatíveis ao sucesso ou fracasso de cada empreendimento.
No entanto, estes interesses acabam criando ranços que vão desde a influência em atitudes do rei, de seus asseclas ou dos formuladores das leis que regem o jogo. Aliás, não é um privilégio de Pindorama, é uma regra universal. Mas isso não dá a Lula nem a qualquer outro candidato o direito de se escudar nos argumentos que tudo não passa de uma guerrilha eleitoral para favorecer o senador José Serra e portanto, compete ao governo que o apóia responder por todos os atos.
A sua candidatura sem nenhum mérito de julgamento é a que mais atemoriza os investidores, consequentemente, que mais influencia as oscilações no mercado financeiro. Pode-se arguir que tudo isso não passa de trapaças eleitoreiras para prejudicar sua vitória ou até mesmo condenar os responsáveis pelas ações. Certamente que, se o capital financeiro-especulativo é o que mais ganha no Brasil e, em contrapartida, seus resultados respingam em questões que afetam o cotidiano de milhões de brasileiros, como miséria, desemprego, violência ou falta de qualidade nos serviços essenciais, é porque alguma coisa está errada e precisa ser corrigida. Mas nada disso pode se transformar em álibi para justificar a omissão de Lula. A democracia pressupõe que este jogo deve ser claro a todas as partes e, em se tratando de uma eleição à presidente da República, a transparência nos atos e propostas de cada candidato é condição sine-qua-nom .
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba





