Chacota como forma de exclusão
Para o sociólogo Paulo Negri, a prática do bullying está correlata ao ''diferente''. ''O bullying é, acima de tudo, uma forma de exclusão. O fato de ser diferente, ou por ser negra, ou por ser obesa, ou por ter algum defeito físico, ou alguma característica que a destoe de um grupo, faz a pessoa ser excluída''.
Negri exemplifica. ''Trabalho com escola há muitos anos. Havia um aluno que tinha, no seu andar e no seu falar, gestos afeminados. Ele passou a ser agredido verbalmente, de forma sutil. Após um tempo, o garoto virou o maior alvo de chacota da escola. Mais adiante, naquele ano letivo, excluíram-no dos grupos de sala. No final do período, o garoto foi alvo de agressão física, sendo chutado''.
O caso do garoto tido como ''afeminado'', um clássico nas escolas, aliás, é, segundo Negri, a exemplificação clara da transposição de fronteiras. ''É a demonstração de que o bullying pode se converter em agressão, em homofobia. Um agressor de bulling hoje pode, com toda certeza, tornar-se um agressor social amanhã''.
Nas palavras do sociólogo, o modelo atual da sociedade incentiva a prática. ''Até a década de 80, a relação de quem colocava o apelido com o apelidado era de amizade. À medida que a sociedade nos mostrou que a moeda é 'ter' e não 'ser', que consumir é o que vale, os valores foram invertidos e as práticas tornaram-se mais cruéis''.
De acordo com o sociólogo, o que serve de consolo é o fato de a mídia dar mais atenção ao assunto. ''A exposição do problema é uma melhora, dizer o que é essa forma de exclusão, configura-se uma vitória. O bullying não é um problema nacional, temos no mundo todo. Não dá mais para fechar os olhos''.
Quanto às soluções, Negri aposta na conscientização. ''Dependendo das situações, é preciso punir como a lei determina, mas sempre digo que a sociedade e as escolas devem criar dispositivos para que haja a conscientização, para que o agredido de hoje não seja o agressor de amanhã''. (T.N)





