Sequência de doenças do coração pode fazer com que o músculo cardíaco perca progressivamente sua força. O problema é grave em todo o mundo e após cinco anos do seu diagnóstico provoca a morte de metade dos pacientes. Sem contar que o cérebro pode ser afetado pela insuficiência cardíaca.

Para o neurologista Ricardo Teixeira, que dirige o Instituto do Cérebro de Brasília (ICB), a constatação faz com que, como nunca, as doenças do coração sejam tratadas precocemente.

Teixeira detalha pesquisa norte-americana que serve como alerta e faz a ressalva: a maior parte das doenças do coração está associada a outras que podem ser controladas, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade, alterações de gordura no sangue e tabagismo.

Pesquisa inédita publicada pelo Journal of Cardiac Failure trouxe que, pacientes com insuficiência cardíaca apresentam também certa insuficiência cerebral. Explique...
Pacientes com insuficiência cardíaca apresentaram pior desempenho quando comparados ao grupo controle em 14 de 19 testes aplicados, sendo que a dificuldade de memória foi o problema mais comum. Quase metade dos pacientes foi classificada como tendo desempenho cognitivo inferior à média. A principal explicação para esses achados é a de que com a falência da bomba cardíaca, o fluxo sanguíneo cerebral é reduzido e perde-se também sua capacidade de autorregulação. Outra hipótese é a frequente ocorrência de derrames cerebrais entre pacientes com insuficiência cardíaca. Um coração fraco aumenta a chance de formação de pequenos coágulos de sangue que podem ''escapar'' para as artérias cerebrais, causando um derrame cerebral. Estudos evidenciam uma prevalência de derrame cerebral de até 35% entre pacientes com insuficiência cardíaca.

Quais os efeitos para pacientes, que, por exemplo, já tiveram histórico de infarto?
O estudo mostrou que pacientes com histórico de infarto tiveram um desempenho cognitivo pior do que aqueles com outras causas de insuficiência cardíaca. A melhor forma de explicar esses resultados é que esses pacientes teriam também maior chance de desenvolver doença dos vasos cerebrais e derrames. O estudo não foi desenhado para demonstrar essa associação nem a demonstrou.

A atenção com os pacientes com insuficiência cardíaca precisa ser redobrada?
Exato. Talvez o mais importante recado desse estudo seja o de que uma boa parte dos pacientes com insuficiência cardíaca pode não ser mais capaz de seguir as recomendações feitas pelo médico, como é o caso de tomar corretamente diferentes medicações em seus diferentes horários. No caso de pacientes com dificuldades cognitivas, um cuidado especial na comunicação deve ser tomado, muitas vezes com a necessidade de se garantir o apoio de alguém que possa auxiliá-lo no seguimento do tratamento.

É hora de acordar e tratar as doenças do coração com preciosismo?
Sim. A maior parte das doenças do coração está associada a outras doenças controláveis, como é o caso da hipertensão arterial, o diabetes, a obesidade, as alterações de gordura no sangue (dislipidemia) e o tabagismo. Tratar essas doenças com preciosismo é o maior investimento que se pode fazer, e isso inclui ter um acompanhamento médico, tomar corretamente as medicações prescritas, fazer atividade física regular, reduzir o estresse. Cigarro, nem pensar!

Por falar em tabagismo, bateu o sinal vermelho para a população. Mas ela acordou?
As pessoas estão mais conscientes, mas ainda há muito trabalho. O número de pessoas que fumam é bem menor hoje do que há 30 anos. Boa parte das pessoas tem noção de que a pressão alta, o colesterol alto ou o diabetes têm de ser tratados para não causar infarto.

Sabendo-se como prevenir, agora, como prever as doenças do coração? Como não ser pego de surpresa?
Para quem tem fatores de risco para doenças do coração, o acompanhamento médico periódico é o melhor caminho para não ser pego de surpresa. Mesmo sem nenhuma doença, a partir dos 40 anos deve-se ir ao cardiologista anualmente para prevenir e detectar precocemente as doenças. Isso inclui, por exemplo, a monitorização das taxas de gordura no sangue, glicemia, e o índice de massa corporal. Para quem vai iniciar atividade física, especialmente após os 30, a avaliação é fundamental, pois assim é possível detectar anormalidades da estrutura e do ritmo cardíaco, assim como lesões das artérias coronárias que podem causar infarto. Esses cuidados são capazes de reduzir o risco de morte súbita.

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