''Centro-esquerda busca salvar a cidade''
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de agosto de 2000
Emerson Cervi De Curitiba 
Folha O senhor acredita que nessas eleições haverá uma repetição da polarização entre os dois principais candidatos de 96, o senhor e o atual prefeito?
Péricles A polarização já ocorre e as pesquisas mostram claramente. O terceiro grupo político mais forte em Ponta Grossa apresentou um candidato fraco, que não tem tradição e história política. Acredito que setores que antes votavam no deputado Plauto (Plauto Miró Guimarães Filho - PFL) apresentem uma tendência maior a votar na nossa candidatura. Por isso temos a esperança da vitória.
Folha Apesar disso, essa será uma campanha diferente, a primeira com possibilidade de reeleição. Que análise o senhor faz da atual administração?
Péricles Acho que o prefeito está desgastado, sofreu muitas acusações e hoje encontra-se sub judice. Existem sérios problemas na prefeitura do ponto de vista político, moral, da degradação do serviço público e do endividamento enorme do município. A dívida hoje é pelo menos quatro vezes maior que a do início do atual mandato. Ela passou de R$ 13 milhões para R$ 60 milhões aproximadamente. Ainda estamos levantando os números exatos.
Folha E do ponto de vista político?
Péricles Ele trocou mais de 40 secretários em três anos e meio. Fez compra de terreno superfaturado. Existe uma série de fatores que fazem com que a população tenha insegurança em reelegê-lo. Ao mesmo tempo, o nosso trabalho é muito consolidado em Ponta Grossa. Temos atuação em todas as vilas e bairros da cidade, nos movimentos de religiosos tanto católico quanto evangélico , nos principais sindicatos operários e profissionais, na Universidade Estadual, no Cefet, nas faculdades privadas, na escola pública e nos movimentos culturais. O trabalho do Instituto Cidade Viva foi muito forte e consolidou uma hegemonia política em Ponta Grossa. Isso dá confiança na vitória.
Folha O deputado Plauto Miró, que não se candidatou, representa setores tradicionais da cidade. O senhor acredita que a elite social e econômica da cidade vá optar pela candidatura do PT?
Péricles Os setores da elite responsável terão que escolher entre a degradação completa da cidade e um governo de esquerda ou centro-esquerda. Creio que eles vão preferir o governo de centro-esquerda, sério, honesto e com tradição na cidade. Técnicos da mais alta competência participam do Instituto Cidade Viva. A aliança com o PDT e PMDB facilita a nossa entrada nos setores mais conservadores da oposição. É uma frente que busca salvar a cidade da situação crítica em que se encontra hoje.
Folha Quais são suas principais propostas de governo?
Péricles Temos um plano claro e transparente. É um governo de reformas sociais, mas também de valorização da cidade e da autoestima, atenção especial ao turismo em Ponta Grossa. Será um governo de parcerias com a Universidade e com participação popular em todos os momentos.
Folha Como essas propostas vão se concretizar na prática?
Péricles Nosso principal projeto é a criação dos Conselhos de Vila. Ponta Grossa tem 140 vilas e cada uma contará com um conselho formado por associação de moradores, padres, pastores, comerciantes, diretores das escolas, médicos e todos os líderes comunitários. Costumo chamar o Conselho de Vila de cimento cultural de uma cidade em permanente ebulição. Ele contempla o orçamento participativo e vai mais adiante. Além de definir a alocação de recursos e as prioridades de investimentos, o conselho propõe uma mobilização permanente da comunidade. Por exemplo, ele poderá tratar desde a organização do carnaval, discussão de política de segurança pública, construção de obras mais baratas, abertura de frentes de trabalho, até nas políticas de saúde, banco do povo e cooperativa dos trabalhadores.
Folha Empresários e patrões não participam do Conselho?
Péricles Sim. Haverá também a participação dos empresários. Além do Conselho de Vila estamos propondo o Fórum do Desenvolvimento Econômico e Social, com participação forte da indústria, comércio, sindicato de trabalhadores, patronais, organizações sociais e culturais.
Folha Quais são as maiores falhas do atual governo na sua opinião?
Péricles Em primeiro lugar, a desmoralização de Ponta Grossa. O município poderia aparecer nacionalmente como centro importante de turismo do Paraná e pólo industrial, mas aparece como símbolo da corrupção e da imoralidade. Essas denúncias vêm desde o início do atual governo, por questões morais, e ultimamente também por corrupção.
Folha As deficiências são políticas?
Péricles Não. Existem postos de saúde fechados, faltam remédios, o salário do funcionalismo está em atraso. Há inchaço de certos setores da máquina pública, como é o caso da Zona Azul. As creches têm problemas de falta de recursos. Todo maquinário do parque de máquinas tem problemas. Na campanha também vamos mostrar a incompetência administrativa. O atual prefeito não tem um programa de governo. Ele trocou de secretários mais de 40 vezes no governo. Quando começava um programa, mudava o secretário e voltava tudo à estaca zero. Além disso, mostraremos que a caridade, talvez um dos mais altos valores humanos, vem sendo usada não como instrumento de libertação das pessoas, mas como instrumento de dominação. Essas questões principais, ligadas ao endividamento do município, é o que vamos mostrar ao povo. Não será uma crítica rasteira, nem ataques à pessoa, mas ao perfil da administração que precisamos mudar. Não vamos fazer baixarias, nem atacar questões pessoais do administrador.
Folha Além de oposição ao prefeito, sua candidatura também é contrária ao atual governo do Estado. Caso eleito, qual será sua posição a respeito do processo de industrialização do Paraná?
Péricles Ponta Grossa recebeu menos investimentos do que merecia, pela sua condição natural, localização estratégica, ser um entroncamento rodoferroviário e ter boas faculdades. A cidade é um dos principais pólos do setor metalmecânico no Estado. Acredito que a função do prefeito, aproveitando o potencial da cidade, é trazer indústrias. A vocação de Ponta Grossa é industrial, até pela proximidade que tem com a capital do Estado. Essa vocação não foi contemplada como merecia. Nós vamos ter uma política industrial forte para a atração de indústrias.
Folha No caso de eleição, como será sua relação com o governo Lerner?
Péricles Esperamos manter uma relação de respeito. A ação de um deputado de oposição é diferente da de um prefeito. Em 98 fui eleito pelo povo, meu governador não se elegeu e minha função na Assembléia é fiscalizar o governo. O prefeito de uma cidade faz projetos, leva-os até o governador com respeito, esperando que ele seja contemplado. Não vou negar minha ideologia nem meus princípios políticos, mas minha função como prefeito é de respeito administrativo em favor das coisas que a cidade merece.
Folha O que um prefeito de oposição ao governo do Estado pode fazer em favor da atração de indústrias?
Péricles Achamos que a política industrial é favorecida pela qualificação profissional da mão-de-obra local e isso vai ser feito. Achamos que só a atração de grandes indústrias modernas não resolve o problema da cidade. É importante que as grandes fábricas venham, mas também temos que buscar alternativas de emprego e renda. Essas alternativas locais chamamos de economia solidária. Ela é formada pelas cooperativas de trabalhadores, frentes de trabalho, movimentos comunitários e barracões comunitários. Defendemos uma ação econômica que permita à população viver da mesma maneira com menos dinheiro. Isso é economia solidária.
Folha Na campanha de 96 uma de suas principais propostas era a valorização da cultural local. Isso será mantido?
Péricles Uma questão fundamental para o desenvolvimento da cidade é o turismo. Ponta Grossa tem um potencial turístico que não foi compreendido pela atual administração nem pelas anteriores. Isso tem que ser o centro de um governo municipal. E a questão do turismo está ligada fundamentalmente à questão da cultura. Um pólo turístico tem que ser também um pólo cultural. Ponta Grossa tem que aproveitar as vantagens por estar perto de Curitiba e não apenas sofrer as desvantagens. Uma das vantagens é o setor cultural.
Folha Como implementar uma política de incentivo cultural?
Péricles Não existe uma política cultural da atual administração. Pouquíssimas coisas foram feitas. Nós temos um projeto sólido de incentivo cultural que começa nos Conselhos de Vila, com a participação da comunidade. Na concepção desse programa, fizemos uma grande descoberta: a importância das igrejas. Elas não são apenas uma instância de orientação espiritual, atuam como instância de agregação comunitária. Têm uma ligação cultural, de orientação para a vida. Por isso colocamos as igrejas com papel importante nos Conselhos de Vila.
Folha O senhor pode dar um exemplo?
Péricles Sim. Uma das igrejas evangélicas de Ponta Grossa, a Congregação Cristã, mantém 400 músicos com instrumentos. A Assembléia de Deus tem uma orquestra que é maravilhosa, uma das coisas mais bonitas que já vi em Ponta Grossa. O município praticamente não tem uma orquestra sinfônica. Nossa orquestra municipal não esta funcionando, não tem lugar para ensaiar, não pode pagar salário do maestro e faltam instrumentos. Não é só isso. Ponta Grossa tem que aproveitar o potencial cultural de Curitiba e atrair grupos culturais, porque tem condições para isso. Vamos viabilizar a cultura folclórica, os Centros de Tradição Gaúcha. Temos uma tradição de poetas na cidade, essas tradições beneficiam o centro turístico e a geração de empregos.
Folha Outra mudança dessa campanha em relação a anterior é a coligação do PT com o PMDB, que em 96 fazia parte da aliança que elegeu Jocelito Canto. Como se deu essa migração do PMDB governista para a sua campanha?
Péricles Primeiro, eu tenho uma proximidade histórica com o PMDB de Ponta Grossa. Em segundo lugar, na esfera estadual o PMDB, PT e PDT formam a bancada de oposição ao governo e isso me aproximou dos deputados do PMDB na Assembléia. O meu partido apoiou a senador Requião ao governo do Estado enquanto o prefeito atual apoiou Jaime Lerner e isso fez com que setores do PMDB se afastassem do governo, facilitando a nova aliança. Com o PDT aconteceu a mesma coisa em relação à esfera estadual. Isso tudo facilitou o diálogo e estou me sentindo muito bem.
Folha O que colaborou para essa abertura do partido em relação às coligações?
Péricles Em primeiro lugar é a relação cotidiano/história, presente/futuro. Durante muito tempo a esquerda brasileira costumou pensar no futuro histórico e se esqueceu do cotidiano das pessoas. Essa contradição é grave. Temos que nos aprofundar no cotidiano das pessoas, sem esquecer da história. Claro que aquele que fica só no cotidiano vira populista por não apresentar nada de novo.
Folha Essa opção em favor das alianças com setores político-tradicionais não gera mais os famosos impasses éticos no PT?
Péricles Em Ponta Grossa estamos superando também a questão da ética maniqueísta e da ética do diálogo. Com a ética do diálogo estamos ganhando espaço. O importante é tentarmos compreender as razões do outro ao invés de criticá-lo. Acho que a esquerda tradicional brasileira tem um perfil da ética de classe média, que é fundamental por ser universal. O mundo que propomos é aquele em que todas as pessoas têm emprego digno, que não precisem se corromper, que façam concurso e passem por mérito e que tenha seu trabalho reconhecido. Essa compreensão favorece as alianças entre classes e setores sociais.
Folha O senador Requião, que em 96 apoiou o atual prefeito, vai participar da sua campanha nesse ano?
Péricles O senador virá muitas vezes a Ponta Grossa e vai se empenhar de corpo e alma na nossa candidatura. Ele tem uma visão crítica da atual administração, independente dos problemas políticos com o prefeito.


