Central da esperança - Mirian Guaraciaba
Central da esperança
Temos vivido assim, ultimamente. Na torcida. A madrugada do Oscar, quando milhões de brasileiros fizeram figa e rezaram por Fernanda Montenegro e Walter Salles Jr., mostrou que continuamos acreditando que, apesar dos governos, tudo pode dar certo.
Não deu Central do Brasil, mas estávamos entre os melhores indicados pela Academia. Não deu Fernanda, mas ela estava lá, na primeira fila, grandiosa, magnífica, enchendo de orgulho um fã-clube de dar inveja às jovens atrizes, loiras e belas, de Hollywood.
Marcamos um golaço. Não levamos, mas conseguimos a proeza de chegar muito perto. Não ganhamos porque a academia é óbvia. O Brasil exibiu Fernanda e suas mazelas a olhos e ouvidos habituados a idiomas menos complicados e histórias aparentemente mais dolorosas.
E mudamos de assunto. Por alguns dias pelo menos, o país que só trata de crise há quase três meses, falou de cinema misturado à poesia, ao lúdico, à esperança, à fantasia. Esquecemos, por horas talvez, que o mundo está muito mais cinza do que imaginam - e dizem - nossos governantes.
Sem a estatueta, voltamos à rotina. Dramática rotina. Com muitas semelhanças à da Central do Brasil. Uma guerra diária, surda. Contra a intolerância, a mentira política, o desemprego, a miséria, e a falta de escolas, de hospitais e de esperança.
No mundo (menos cinza) do presidente Fernando Henrique, é impressionante o número de estabelecimentos comerciais que fecharam suas portas nos últimos quatro anos. Em Brasília, lojas tradicionais pediram concordata ou reduziram sua área de atuação.
Desde a implantação do Plano Real, o meio empresarial vem reclamando medidas urgentes para a retomada do crescimento - queda da taxa de juros, principalmente. As sucessivas crises agravaram ainda mais esse quadro e quase voltamos à era pré-real, com inflação alta e abalo de credibilidade.
Agora, até o presidente admite - finalmente - que o desemprego está crescendo. Preocupa o governo, diz Fernando Henrique. Discute-se o assunto em todos os níveis, mas sabe-se que a economia funciona em cadeia. Se há desemprego, há menos dinheiro, menos consumo, menos produção, menos emprego.
A economia está reagindo, é verdade. O dólar está caindo, devagarinho. Parece recuar aos patamares anteriores à crise de janeiro. A inflação, já se sabe, deverá ser inferior à estimada pelo governo e o Fundo Monetário Internacional. Só que o cenário pintado de cor-de-rosa deverá agravar a recessão.
Na edição de domingo do Correio Braziliense, matéria assinada pelo repórter Ricardo Leopoldo mostra que a estratégia da equipe econômica fará aumentar - e muito - o desemprego.
Se confirmadas as previsões do ministro da Fazenda para este ano, o número de brasileiros fora do mercado de trabalho subirá de 6,6 milhões para 10,4 milhões em apenas 12 meses.
Cenário desolador, definiu o professor Márcio Pochmann, da Universidade Estadual de Campinas. O país estará mais pobre em 1999, a renda per capita cairá 5,4% em relação ao ano passado.
Então, o que nos resta além de torcer para que as previsões de Pochmann não se concretizem? Termos o prazer de assistir, de longe, à glória de Fernanda e Walter Salles? Certamente, é uma saída: a de ver o Brasil brilhar, nem que seja de vez em quando, em terras estrangeiras.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista





